Monthly Archives: Janeiro 2013

As estrelas no firmamento: “Silver Linings Playbook”

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Classificação: 8/10

Nomeações: 8 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Principal, Melhor Actor Secundário, Melhor Actriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Montagem)

 

“Silver Linings Playbook” não é mais que uma comédia romântica. Esta simples frase, mais que uma crítica, é uma simples constatação de facto. Por que é importante estabelecer isto logo de início? Porque ao inserir-se tão integralmente num estilo muito específico de filme, a mais recente obra de David O. Russell acaba por se prender aos (quase sempre) inevitáveis clichés do género. Mas sabem que mais? Não é por isso que não deixa de ser um excelente filme e uma comédia romântica muito boa.

As escolhas de David O. Russell têm sido curiosas. Depois do comparativamente calmo “The Fighter”, Russell volta aqui às comédias, mas desta feita sem o toque levemente surreal que as suas costumam ter. Apesar de seguir uma história que é tudo menos convencional – a história de Pat Solitano, um homem bipolar que, apesar de obcecado em reconquistar a sua ex-mulher, se apaixona por uma mulher tão complicada como ele –,  o grande triunfo de “Silver Linings Playbook” está no facto do realizador desaparecer para trás da câmara e deixar os seus actores brilhar.

E quanto eles brilham neste filme. O filme de David O. Russell foi o primeiro filme a ter actores nomeados em cada uma quatro categorias de interpretação nos Óscares desde “Reds”, o épico de Warren Beatty, em 1981. A sustentar os alicerces de toda a narrativa, temos os excelentes desempenhos (muito pouco) secundários de Robert De Niro e Jackie Weaver como os pais de Pat, cuja levemente disfuncional relação poderá ter tido uma grande influência nos futuros problemas emocionais do filho.

Como Pat Solitano, Bradley Cooper é uma revelação. A complexidade dramática e excêntrica neurose que sai de cada frase acelerada disparada pela boca de Pat parece simultaneamente revelar e esconder o que lhe vai na alma. Como é apanágio de quase todas as pessoas que “dizem o que pensam”, a frontalidade visceral dos seus actos vai-se revelando não ser mais que uma forma de tentar simplificar os sentimentos pouco simples que lhe dividem o coração.

Quais são esses sentimentos? Que Tiffany, a mulher que Pat acaba por “recrutar” para o ajudar a voltar a entrar em contacto com a sua ex-mulher, poderá ser, na verdade, a mulher da sua vida. Se Bradley Cooper é uma revelação, Jennifer Lawrence é uma triunfal confirmação. Tiffany é uma heroína moderna do tipo que raramente encontramos no grande ecrã. Com tanto de sexy e descomplexada como de frágil e carente de verdadeira companhia. Uma mulher que, com as suas mentiras, revela muito mais da sua alma do que Pat parece ser capaz de compreender.

O sucesso de qualquer boa comédia romântica depende, acima de tudo, de dois grandes factores: bons diálogos e química entre os protagonistas. “Silver Linings Playbook” tem ambos. Muito de ambos. Se é verdade que nós sabemos exactamente onde a história nos vai levar, a viagem não pode ser nunca menos que fascinante quando é feita na companhia de tanto talento.

 

Pedro Quedas

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Arquitectos de emoções: A importância da música na Sétima Arte

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Quando falamos dos prémios principais dos Óscares, tendemos a concentrar as nossas atenções no trabalho dos realizadores, actores e argumentistas. Sendo que poucos dos que trabalham no meio são ignorantes ao ponto de menosprezar a importância do trabalho de toda a equipa na produção de um bom filme, estes três vectores são aqueles que, inevitavelmente, atraem a maioria da atenção por parte dos fãs dos Óscares. Isto é injusto para o trabalho de um sem número de profissionais, especialmente para os compositores.

Se pararmos para pensar bem no assunto, quantos são os filmes que, quando nos recordamos deles, a primeira coisa que nos ocorre é a sua banda sonora? O que nos vem à cabeça quando pensamos na cena do duche em “Psycho”? Ou quando Elliot atravessa a lua na sua bicicleta voadora, em “E.T. the Extra-Terrestrial”? Ou nos memoráveis créditos iniciais de “Star Wars” ou “2001: A Space Odissey”? Ou quando nos recordamos de qualquer cena de “The Good, The Bad and the Ugly”?

É um trabalho ingrato, este de formar um dos pilares para o estatuto lendário de tantos filmes e não ter necessariamente o reconhecimento devido pelo seu contributo. Mas é este o dia-a-dia da fundamental comunidade de compositores de Hollywood, um grupo eclético que atravessa várias gerações e estilos musicais. Um grupo com nomes que vão desde os lendários John Williams ou Ennio Morricone a talentos inovadores como Danny Elfman ou Hans Zimmer.

Teria “Jaws” tido o mesmo aterrador impacto sem aqueles acordes agoniantes a repetirem-se na nossa cabeça? Quanto do encanto de “Amélie” se teria perdido sem o contributo de Yann Tiersen? E será que “Inception” teria conseguido agarrar o pulso do espectadores com tanta força sem aquela imparável banda sonora? Quanto tem a Disney de agradecer a Alan Menken pela sua nova “era dourada”, que começou com “The Little Mermaid” e nunca mais parou?

E o que dizer da relevância de certas canções para a popularidade de tantos filmes? Basta olharmos para a saga James Bond (cuja primeira identificação de cada filme começa, invariavelmente, pela sua música titular), para percebermos o quanto o cinema tem a ganhar ao não descurar o poder de uma canção. Clássicos como “As Time Goes By”, “When You Wish Upon A Star” ou “Streets Of Philadelphia” ajudaram a tornar os seus filmes ainda maiores do que sequer sonhavam ser. Isto mostra como a indústria musical reconhece a importância da sua presença num filme. Nomes que vão desde os Beatles a Bob Dylan, passando por David Byrne, Bruce Springsteen ou Tom Waits, contam com uma nomeação ao Óscar no seu extenso currículo.

Todos nos lembramos das músicas, mas raramente lhes damos o seu crédito. Pela sua própria natureza, vivem para servir o filme nos bastidores, guias invisíveis do nosso investimento emocional num filme. Este texto apenas é manifestamente insuficiente para sequer começar a dar uma noção da importância da música na nossa experiência cinéfila. Principalmente se considerarmos que nem chegámos sequer a abordar um único musical.

 

Pedro Quedas

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A injustiça da abundância: Top 5 – Anos mais fortes de Hollywood

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É raro o ano em que não encontramos pelo menos um ou dois filmes que nos marcam de forma especial. Mas acontece haver cerimónias em que nenhum dos nomeados pode ser considerado um clássico intemporal e simplesmente se tem de escolher um. Por outro lado, temos outros anos em que o talento se parece ter acumulado e contribuído para algumas das mais difíceis decisões da Academia. Anos que deixaram filmes de topo no limbo esquecido dos “outros nomeados”. Numa retrospectiva dos nomeados na categoria de Melhor Filme, aqui ficam os cinco anos mais fortes da História dos Óscares:

 

5 – 1989: Este foi um ano de histórias e personagens inspiradoras. Desde o veterano de guerra Ron Kovic de “Born on the Fourth of July”, de Oliver Stone, a Christy Brown em “My Left Foot” (Jim Sheridan), o escritor e pintor irlandês que, fruto de ter nascido com paralisia cerebral, só conseguia escrever e pintar com o seu pé esquerdo, passando pelo professor que todos queríamos ter, John Keating, em “Dead Poets Society” (Peter Weir), 1989 apresentou-nos um extenso rol de filmes e interpretações memoráveis. E depois ganhou “Driving Miss Daisy”. Ok.

 

4 – 1993: Não havia a mais pequena dúvida para quem iria o Óscar neste ano. “Schindler’s List”, de Steven Spielberg, foi o justíssimo vencedor de sete Óscares e foi sempre o grande favorito. Isto poderá dizer bastante sobre a grandeza do filme, considerando que teve concorrência tão forte como “In The Name of the Father”, de Jim Sheridan, “The Piano”, de Jane Campion, e “The Remains of the Day”, de James Ivory. Um ano de excelentes filmes que, infelizmente, escolheram o ano “errado” para sair.

 

3 – 1994: Dois excelentes anos de seguida. Já por aqui falámos de como o facto de “Forrest Gump” ser um belíssimo filme não significa que merecesse ganhar e de como talvez Frank Darabont (“The Shawshank Redemption”) ou, acima de tudo, Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”) o mereciam mais. O que ficou por dizer é que os outros dois nomeados para Melhor Filme foram o injustamente esquecido “Quiz Show” e uma das melhores comédias românticas de sempre, “Four Weddings and a Funeral”. Que ano.

 

2 – 1974: “The Godfather Part II”, de Francis Ford Coppola, é a melhor sequela de sempre. Muitos há que o consideram até melhor que o primeiro. É, sem grande polémica, pura e simplesmente um dos melhores filmes da História do Cinema. Seria de esperar, portanto, que este Óscar de Melhor Filme tivesse sido uma das decisões mais fáceis da Academia. Nem por isso, dado que este foi o ano em Roman Polanski lançou a sua obra-prima, o clássico ‘noir’ “Chinatown”. A concorrência foi ainda mais apertada com a competição por parte do fenomenal “The Conversation”, curiosamente também de Francis Ford Coppola.

 

1 – 1939: Em plena “era dourada” de Hollywood, 1939 foi o provavelmente o ano mais “gordo” e opulento de todos. Este foi o ano que nos deu a inspiração melodramática de Frank Capra, com “Mr. Smith Goes To Washingtown”. Foi o ano em que John Ford estabeleceu o padrão ao qual todos os ‘westerns’ se comparam, com “Stagecoach”. Foi o ano em que a magia do cinema a cores brilhou com nunca antes, em “The Wizard of Oz”. Foi também o ano em que o épico “Gone With The Wind” ganhou o Óscar de Melhor Filme. Qualquer um destes podia ter ganho. Num ano com esta qualidade, com uma escolha tão impossivelmente difícil, “frankly, my dear, I don’t give a damn”…

 

Pedro Quedas

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Anatomia de uma obsessão: “Zero Dark Thirty”

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Classificação: 9/10

Nomeações: 5 (Melhor Filme, Melhor Actriz Principal, Melhor Argumento Original, Melhor Montagem, Melhor Montagem de Som)

 

Ao longo de uma longa e curiosa carreira, Kathryn Bigelow tornou-se uma realizadora singular no firmamento de Hollywood. Não apenas por se ter tornado a primeira Melhor Realizadora dos Óscares, pelo excelente “The Hurt Locker” (embora isso já seja um feito razoavelmente impressionante), mas por tê-lo conseguido sem nunca mudar o seu estilo.

Bigelow é não mais que uma perita em filmes de acção e o que conseguiu foi elevar o seu metódico trabalho ao panteão da mais elevada arte. Não por infundir os seus ‘thrillers’ de grandes floreados visuais ou reflexões filosóficas (até o evita deliberadamente), mas simplesmente por pura e magistral execução. Os seus filmes são um hino à economia de acção e diálogo, completamente limpos de qualquer pretensiosismo ou demagogia. “Zero Dark Thirty” é o seu mais recente exemplo disso mesmo e não é nem mais nem menos que um excelente filme. À vontade, um dos melhores do passado ano cinematográfico.

Novamente em colaboração com Mark Boal, com quem tinha formado a equipa que levou o inesperado mas igualmente excelente “The Hurt Locker” ao Óscar de Melhor Filme em 2009, Kathryn Bigelow começou por querer fazer um filme sobre a infrutífera procura pelo paradeiro de Osama Bin Laden. Os seus planos rapidamente mudaram quando Barack Obama anunciou que uma equipa de Navy Seals tinha encontrado e morto o infame líder terrorista, principal responsável pelos ataques de 11 de Setembro de 2001.

O que saiu da nova revisão foi uma fascinante viagem aos esforços da CIA para capturar Bin Laden, começando no trabalho de bastidores para encontrar o fugidio líder terrorista e culminando na missão militar que finalmente o apanhou. Uma das muitas boas decisões da dupla Bigelow/Boal neste filme foi a de focá-lo na figura de “Maya” (cujo nome verdadeiro se mantém desconhecido do grande público), uma jovem agente da CIA que ficou de tal modo obcecada com a captura de Bin Laden que passou a rejeitar abertamente quaisquer outras funções do seu trabalho até cumprir a sua missão.

Jessica Chastain é sublime no papel principal, interpretando Maya com uma ferocidade e quase arrogância sem paralelo, determinada a não perder tempo com burocracias internas ou inanes jogos de poder na sua crescente obsessão para apanhar Bin Laden. É um desejo que a consome por dentro, um desejo alimentado por uma mistura explosiva de dever patriótico e vingança pessoal, principalmente depois de ver alguns dos seus colegas morrer num atentado.

Esta crescente obsessão começa a ser vislumbrada logo no início do filme, que começa com Maya claramente desconfortável com o uso de tortura como método de interrogação e vai progressivamente mostrando uma maior abertura a esses métodos por parte da determinada agente. E aqui chegamos a uma das narrativas mais polémicas associadas ao filme de Bigelow – o facto de supostamente promover o uso de tortura por parte das forças militares norte-americanas.

E o que podemos dizer em relação a esta polémica? Que é um pouco despropositada. Principalmente se considerarmos que a grande maioria das críticas partiram de colunistas que ainda nem sequer tinham visto o filme. Talvez se o tivessem feito teriam percebido que a ausência de comentário não tem de significar que se concorde com o que está exposto na tela. Tal como em “The Hurt Locker”, Kathryn Bigelow não faz mais do que mostrar a realidade e deixar a reflexão para o espectador. Vamos não cometer o erro de criticar “Zero Dark Thirty” por nos fazer pensar.

 

Pedro Quedas

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Críticos preferem “Zero Dark Thirty” e “Amour”: Balanço da segunda semana da corrida aos Óscares

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Os críticos não votam nos Óscares. É importante salientar isto para que não se saltem para conclusões precipitadas mal começam a sair os primeiros resultados na ‘Oscar season’, por isso vamos repetir: os críticos não votam nos Óscares. Isso não quer dizer, no entanto, que não possam ter influência. Muitas vezes, têm bastante.

Foi a unanimidade do voto dos críticos que se crê ter orientado, em 2009, o voto dos membros da Academia na direcção do, na altura desconhecido, filme de Kathryn Bigelow, “The Hurt Locker”. Veremos em breve se têm a mesma influência com “Zero Dark Thirty” nesta temporada dos Óscares.

Para já, o apoio está lá. Tanto o New York Film Critics Circle como a Chicago Film Critics Association votaram em “Zero Dark Thirty” como melhor filme do ano, naquele que poderá ser um prenúncio de qual será o único filme com hipóteses realistas de retirar o esperado Óscar a “Lincoln”, mesmo considerando que a Academia rejeitou Bigelow para Melhor Realizadora.

É interessante também notar que poderá muito bem ter sido o apoio dos críticos a empurrar “Amour” na direcção da sua justa mas inesperada nomeação para Melhor Filme. Tanto a Los Angeles Film Critics Association como National Society of Film Critics apontaram o filme de Michael Haneke como o melhor do ano. Ambas as associações deram também o seu voto à única actriz que poderá trazer consigo uma surpresa no Óscar de Melhor Actriz Principal: Emmanuelle Riva.

Quando olhamos para os votos dos críticos, tanto podemos ver tendências como ficar ainda mais confusos. No prémio de Melhor Actor Secundário, por exemplo, que já de si é o Óscar mais incerto de prever deste ano, três das quatro principais associações de críticos votaram em actores que acabaram por nem sequer ser nomeados.

Onde a orientação dos prémios se torna interessante é quando se assiste a unanimidade num não favorito. É esse o caso de Amy Adams, que tem reunido o consenso dos críticos pelo seu papel em “The Master”, lançando assim a sua candidatura a “destronar” Anne Hathaway como favorita ao Óscar de Melhor Actriz Secundária.

Por fim, um último apontamento pelo único Óscar que parece já estar basicamente entregue. Com a excepção dos críticos de Los Angeles, que preferiram Joaquin Phoenix, em “The Master”, a vasta maioria dos prémios de críticos seguiram a tendência que se deverá manter na categoria de Melhor Actor Principal. A 24 de Fevereiro, Daniel Day-Lewis vai receber o seu terceiro Óscar.

Pedro Quedas

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Os limites do excesso: “Les Misérables”

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Classificação: 6/10

Nomeações: 8 (Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Secundária, Melhor Direcção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Caracterização, Melhor Canção Original, Melhor Mistura de Som)

 

Há sempre um equilíbrio curioso a manter quando se faz uma crítica a um filme. Devemos criticar uma decisão do realizador ou compreender que esta nasceu do desejo de ser fiel à obra original? Devemos elogiar os seus bons momentos ou apontar as falhas do filme como um todo? “Les Misérables” é um filme de grandes ambições e passos falhados, de momentos épicos e sequências aborrecidas. Mas, antes de tudo, dê-se crédito onde ele deve ser dado: a última coisa de que o podemos acusar é de ser banal.

Realizado por Tom Hooper e adaptado do musical (também este uma adaptação do romance de 1862 de Victor Hugo), “Les Misérables” é um filme que, quando é bom, é bastante bom. Estes momentos altos surgem, invariavelmente, durante as canções. Canções que vão desde o melodramático (“I Dreamed A Dream”) ao cómico (“Master Of The House”), com uma dose generosa do simplesmente épico (“Do You Hear The People Sing?”). Será justo apontar que nem todas as canções atingem estes altos? Talvez não, se notarmos que o filme tem quase 50.

Nenhum momento no filme é mais alto que a interpretação incrível de “I Dreamed A Dream” por Anne Hathaway, que consegue, no espaço de uns meros três minutos, justificar plenamente a sua nomeação para o Óscar de Melhor Actriz Secundária e lançar uma forte candidatura à vitória a 24 de Fevereiro. Hathaway, que se tem vindo a afirmar com um dos nomes mais fortes da nova geração de Hollywood, destaca-se num elenco onde não faltam nomes sonantes: Hugh Jackman, Russell Crowe, Helena Bonham Carter ou Sacha Baron Cohen, entre muitos, muitos outros.

Elogiadas que estão algumas canções como os momentos de topo do filme, é importante notar que muito pouco deste filme não é cantado. E aqui entramos num dos momentos em que se torna difícil perceber como se deve proceder nesta crítica. “Les Misérables” faz parte de um género específico de musical que se caracteriza por não ter quase nenhuns momentos de diálogo falado entre canções, sendo todas as falas cantadas num registo semi-operático. Isto torna o filme, a espaços, muito cansativo. Principalmente se considerarmos que tem uma duração de quase três horas.

Poderá a culpa ser apontada a Tom Hooper se este não fez mais que seguir o modelo do musical original? Poderemos criticá-lo por realizar uma amálgama gorda e opulenta do mais exaltado melodrama? Como, se “Les Misérables” é isso mesmo? É um hino ao sentimento hiperbolizado, para o melhor e para o pior. Que outro filme se poderia retirar deste material original?

Uma crítica justa não deve ignorar as intenções do autor, mas também não pode menosprezar a opinião pessoal. Para os fãs incondicionais do original, “Les Misérables” não deverá desiludir. Para este crítico, foi um gesto falhado com a maior das ambições. Uma mão-cheia de excelentes momentos rodeados de excesso esticado aos limites do bom senso. Uma lembrança de como as melhores intenções nem sempre chegam. Mas seja-lhe dado crédito: ao menos não é banal.

 

Pedro Quedas

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Profetas da desgraça: Devemos usar outros prémios para prever os Óscares?

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Vencer um Óscar tem tanto de mérito artístico como de marketing e de gestão da onda de ‘buzz’ que se vai formando ao longo dos dois primeiros meses do ano, naquela que é normalmente chamada de ‘Oscar season’ (alguns dos mais cínicos entre nós diriam que é dado mais ênfase à segunda parte desta equação). Assim sendo, é importante distinguir entre o que constitui ‘buzz’ genuíno e o que não passa de fogo de vista.

Na categoria de “fogo de vista”, os principais “culpados” são os Globos de Ouro. Sem querer retirar importância à conquista do prémio em si (que muito deve honrar os poucos privilegiados que o recebem) é essencial não confundir essa vitória com uma previsão do que se vai passar nos Óscares. De facto, nos últimos dez anos, os vencedores de Melhor Filme nos Óscares coincidiram com os premiados nos Globos de Ouro apenas quatro vezes.

Este número torna-se especialmente decepcionante se considerarmos que os Globos de Ouro separam os premiados entre Melhor Filme – Drama e Melhor Filme Musical/Comédia. Ou seja, mesmo que tivéssemos uma grande confiança na fidelidade dos Globos como “profetas” dos Óscares, continuaríamos a ter de escolher entre dois possíveis candidatos. De facto, nas quatro vezes em que os Globos de Ouro “acertaram na previsão” nos últimos dez anos, dois foram na categoria de Drama (“Slumdog Millionaire” e “The Lord of the Rings: The Return of the King”) e dois na de Musical/Comédia (“The Artist” e “Chicago”).

Como se pode explicar esta discrepância? Muito simplesmente porque não são as mesmas pessoas a escolher quem ganha. Os Globos de Ouro são atribuídos pelos 93 membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, enquanto que os Óscares são escolhidos pelos quase seis mil membros da Academia, que inclui membros de todas as vertentes profissionais ligadas à sétima arte, desde produtores e realizadores a técnicos de som e carpinteiros.

As escolhas dos Óscares tendem a ser, ainda que não necessariamente focadas no sucesso comercial de um filme (como é muitas vezes apontado, erroneamente), sem dúvida mais “conservadoras” do que muitos desejariam. Isto pode ser explicado pelo facto de um membro da Academia só perder o seu voto quando morre, o que faz com que a média de idades dos votantes seja muito elevada, formando um sector demográfico de decisores pouco dado a premiar ruptura e irreverência.

Devemos então simplesmente ignorar tudo o que se passa antes da cerimónia de 24 de Fevereiro? Desistir de tentar fazer qualquer espécie de previsão? Não necessariamente. Porque se é verdade que não devemos retirar muitas conclusões dos Globos de Ouro, estes não são os únicos prémios da ‘Oscar season’. Ao longo das próximas semanas ainda vão ser entregues os prémios das associações de críticos de várias cidades norte-americanas. Estes prémios são importantes, acima de tudo, na criação do já muito falado ‘buzz’, que influencia, de facto, as mentes dos votantes.

Mais importantes ainda são os prémios dos sindicatos dos produtores, realizadores, actores, etc. Estes últimos costumam ter uma muito maior percentagem de eficácia na previsão dos Óscares, dado que os que votam neles são os mesmos que fazem parte do “júri” da Academia. São infalíveis? Claro que não, nada é. Mas deveríamos todos ficar bem atentos quando esses prémios começarem a ser entregues ao longo das próximas semanas.

 

Pedro Quedas

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