Monthly Archives: Janeiro 2016

A podridão e a nobreza: “Spotlight”

Spotlight

Classificação: 10/10

Nomeações: 6 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Original, Melhor Montagem)

 

Em 2002, a equipa de jornalismo de investigação do Boston Globe, de seu nome “Spotlight”, desmascarou – através de uma série de artigos, eventualmente vencedores de um Pulitzer – não só um padrão de casos de abuso sexual de padres a crianças mas também a cumplicidade dos mais altos cargos da Igreja Católica na tentativa de ofuscar estes abusos. Treze anos depois, o realizador Tom McCarthy traz ao ecrã esta triste mas essencial história. Usando os jornalistas como ferramentas, tal como os próprios usaram as palavras impressas numa página de jornal, McCarthy cria aqui um filme que não é apenas brilhante na sua forma e conteúdo. É importante pelo seu impacto e significado.

Uma das notas mais brilhantes deste filme passa pelo seu argumento, escrito a duas mãos por Josh Singer e Tom McCarthy. Temos aqui um texto que consegue a proeza de contar uma história verdadeira com a maior fidelidade possível sem nunca sacrificar o entretenimento do telespetador. É uma prova de como não é preciso fazer compromissos artísticos e éticos para fazer um filme que qualquer pessoa pode disfrutar.

Especificamente, quero destacar a tentação tão grande que este filme poderia ter sentido para aumentar o volume no sensacionalismo. Com temas tão explosivos como pedofilia e corrupção sistémica na Igreja Católica, acredito que a grande maioria dos autores que pegassem nesta história não iriam resistir a encostar um megafone à sua indignação. Mas isso nunca acontece. Tal como os admiráveis jornalistas a que dá voz, “Spotlight” concentra-se na recolha e exposição dos factos e deixa a digestão das tragédias que estes revelam a nosso cargo. É essa a nossa missão como “leitores”. Não sei se alguma vez vi outro filme retratar de forma tão perfeita aquilo que deveria ser o ideal jornalístico.

A humanidade que brota neste filme nunca é pré-fabricada por diálogos contados ao milímetro para ganhar Óscares – ela nasce da naturalidade com que os seus atores encarnam os talentos e personalidades da equipa “Spotlight”. Todo o elenco está perfeito, mas destacam-se o estoicismo contido de Liev Schreiber como Marty Baron e a subtil força de Rachel McAdams como Sacha Pfeiffer, uma excelente profissional a debater-se com o impacto emocional que o seu artigo poderá ter na sua muito católica avó. Daria também um destaque ao desempenho de Mark Ruffalo, que deixa o seu corpo lentamente contorcer-se na sua transfiguração em Mike Rezendes, dono da única cena em que um dos jornalistas deixa toda a sua emoção sair cá para fora. Um momento de raiva justificada que pontua de forma ideal um filme propositadamente contido.

Através dos olhos destes jornalistas, somos confrontados com realidades sujas e duras de aceitar, cara a cara com um número deprimentemente grande de vítimas inocentes. E é aí, perante o confronto com esta realidade, que todos os artifícios desaparecem. Toda as maquinações da criação artística se tornam invisíveis e só resta o espetador e a história. Habituados que estamos a celebrar o trabalho de realizadores cuja visão é mais palpável “a olho nu”, por vezes negligenciamos a generosidade de artistas como Tom McCarthy. Sem qualquer hesitação ou vestígio de ego, o realizador serve aqui um propósito maior que o da sua própria ostentação. E o que é, se não isso, o jornalismo?

 

Pedro Quedas

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Viagens ao centro da alma: “Inside Out” / “Ex Machina”

Inside Out + Ex Machina

 

Inside Out

Classificação: 10/10

Nomeações: 2 (Melhor Argumento Original, Melhor Filme de Animação)

Este filme é mágico. Deixou-me a alma em desalinho e atou-me a emoção em nós apertados. Um filme de animação com criaturinhas coloridas com vozes engraçadas causou-me um impacto emocional que, até agora, ainda não foi rivalizado. Esta obra-prima da Pixar transporta-nos para o centro da mente de uma criança a entrar na adolescência e antropomorfiza as suas emoções em entidades separadas que estão sempre em conflito para “controlo” do seu comportamento. Aquilo que podia não ser mais que uma premissa brilhante com potencial cómico (e, não nos enganemos, tem mesmo muita piada), transforma-se, nas mãos dos realizadores Pete Docter e Ronnie Del Carmen, numa profunda reflexão sobre como tendemos a suprimir os nossos verdadeiros sentimentos em prol de uma falsa sensação de felicidade. Vários psicólogos infantis já afirmaram que “Inside Out” retrata de uma forma quase perfeita a evolução da psique humana – e o modo como a nossa personalidade não é apenas um produto estanque da nossa genética mas antes vai evoluindo com o confronto com as realidades da vida e a interação com outros seres humanos. Todo o elenco de vozes no filme está impecável, mas destacam-se as performances de Amy Poehler (“Alegria”) e Phyllis Smith (“Tristeza”). O modo como interagem uma com a outra é a espinha dorsal desta viagem e consegue a proeza de nos fazer rir e chorar quase simultaneamente. Muito mais haveria a dizer sobre um filme tão incrivelmente rico como este, mas para quê perder mais tempo quando já tudo foi dito logo no início desta crítica? Este filme é mágico.

 

Ex Machina

Classificação: 9/10

Nomeações: 2 (Melhor Argumento Original, Melhores Efeitos Visuais)

O que nos torna humanos? Que qualidade intrínseca e inimitável nos distingue de outros animais e de qualquer outra tentativa de reproduzir a condição humana? Esta é uma questão de base na melhor ficção científica, desde livros a filmes como “A.I. Artificial Intelligence” ou “Blade Runner”. E é também essa dúvida existencial que dá gás a esta muito auspiciosa estreia do argumentista Alex Garland atrás da câmara. Alicia Vikander é a verdadeira estrela desta fábula tecnológica, mas que não se pense que Oscar Isaac ou Domhnall Gleeson ficam atrás. O coração por trás deste misterioso conto de computadores, sexo e (muito humanas) traições, bate a três – mesmo se considerarmos que uma das três partes desse coração tem fios e chips em vez de veias e sangue. É difícil explicar a narrativa deste filme sem estragar a experiência a quem ainda não o viu, mas posso dizer que envolve o Teste de Turing mais interativo alguma vez criado – e o modo como esse teste pode afetar tanto a “máquina” como o homem que a está a testar. Onde reside o génio de Garland nesta obra é no modo como ele consegue fazer-nos duvidar de tudo e de todos. O que vemos em cena raramente é exatamente o que parece apesar de, no fim, tudo fazer o mais claro dos sentidos. Certos filmes querem atingir-nos emocionalmente, puxar pelos fios do nosso coração. Outros têm as suas miras apontadas a algo mais cerebral, querem-nos deixar a pensar quando saímos da sala de cinema. “Ex Machina” é uma daquelas raras preciosidades que tentam – e conseguem – fazer ambos. A elegância com que o consegue é o que torna este um dos melhores filmes do ano.

 

Pedro Quedas

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O mistério de um olhar: “Bridge of Spies”

Bridge of Spies

Classificação: 8/10

Nomeações: 6 (Melhor Filme, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento Original, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Direção Artística, Melhor Mistura de Som)

 

O tema era rico para a “Oscar season”. A ficha técnica era estelar – com nomes como Steven Spielberg, Tom Hanks e até os Irmãos Coen a darem um “pedigree” incomparável ao filme. Este filme tinha tudo para ser demasiado… “polido”. “Bridge of Spies” é tudo menos. É, antes, uma mostra de subtileza e economia narrativa. Nas mãos do seu genial realizador, esta história de espiões, advogados e nações em convulsão pinta um fresco elegante de uma das mais curiosas histórias dos tempos da Guerra Fria.

A história? Rudolf Ivanovich Abel (Mark Rylance) foi um notório espião soviético que foi capturado nos anos 50 e a quem foi atribuído, numa suposta mostra de imparcialidade jurídica, um dos melhores advogados de Nova Iorque – James Donovan (Tom Hanks). O veterano advogado, com o custo da sua popularidade (por defender um suposto traidor à pátria), desenvolve uma relação próximo com Abel, que acaba por culminar na negociação da sua troca por um soldado americano algures nas escuras e desorganizadas ruas de Berlim aquando da construção do célebre muro.

Se Spielberg e Hanks são as mãos seguras que carregam esta complexa história de avanços e recuos sob a sombra de uma guerra nuclear entre duas superpotências, Mark Rylance é a estrela que brilha por entre a penumbra. O veterano e aclamado ator de teatro inglês mostra o quanto se consegue fazer com um simples olhar. Com uma cara encovada, um corpo debilitado pela idade e uma miríade de segredos que foi educado desde cedo a saber esconder, Rylance consegue mostrar como Abel vai gradualmente mostrando mais emoção a cada cena, a cada momento de confiança conquistada. Quase nada muda na sua cara, mas a nossa relação com o personagem é transfigurada no fim do filme. É nada menos que brilhante.

Será “Bridge of Spies” um filme capaz de nos mudar a vida? Uma obra-prima da qual falaremos daqui a 20 anos como um dos melhores do seu tempo? Talvez não. “Limita-se” a ser um filme muito, muito bem feito. Não é um dos grandes candidatos à vitória na noite dos Óscares, mas não é obrigado a sê-lo. É “apenas” um belíssimo filme, feito por uma equipa que sabe o valor de contar uma boa história.

Esta equipa é composta tanto pelas grandes estrelas que atraem a maioria dos telespectadores ao cinema para ver este filme quanto pelos vários outros trabalhadores incansáveis que construíram este fascinante mundo. Embalados pela música do nomeado ao Óscar Thomas Newman (a substituir o habitual colaborador de Spielberg, John Williams, ocupado com um certo pequeno filme sobre Jedis e sabres de luz do qual não devem ter ouvido falar), entramos verdadeiramente num novo mundo. Este é um filme fundado na sua atmosfera, calibrada em dois diferentes países através de subtis pistas visuais. É um exemplo perfeito de como o cinema pode funcionar como a mais bela máquina do tempo.

 

Pedro Quedas

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Quem parte na liderança na corrida ao Óscar?

Primeiro Balanço Corrida

Ainda há muitos filmes para ver e avaliar até à cerimónia e deixarei para as minhas previsões “oficiais” para os dias imediatamente antes da noite dos Óscares, mas isso nunca me impediu de especular desvairadamente sobre o que poderá acontecer. Vamos tirar uns momentos hoje para fazer as melhores previsões que existem – as que partem quase totalmente de instinto e ainda não foram minadas por horas e horas de “análise de mercado”.

Comecemos então por notar que há muitos anos que não tínhamos uma corrida ao Óscar tão em aberto após as nomeações. Especialmente na categoria de Melhor Filme, onde temos cinco potenciais vencedores com esperanças credíveis de arrecadar um Óscar. Na linha da frente, temos “Spotlight”, “The Big Short” e “The Revenant” com claras aspirações “ao título”. Eu diria que o filme de Alejandro G. Iñárritu tem menos hipóteses dado que nenhum realizador alguma vez viu o seu filme ser premiado dois anos seguidos, mas neste ano tão imprevisível, nenhuma carta está fora do baralho. Incluindo a Academia ir para filmes mais “ao lado”, como “The Martian” ou até mesmo “Mad Max Fury Road”.

Na corrida dos realizadores, o consenso está mais voltado para o veterano George Miller. Acima de tudo, porque o seu “Mad Max Fury Road” é, de todos estes filmes, provavelmente aquele onde está mais vincada a visão singular do seu criador. Absolutamente mais ninguém poderia ter criado aquela gloriosa bizarria. Se Tom McCarthy (“Spotligh”) ganhar, no entanto, poderemos ter uma pista bastante clara sobre o rumo da Academia para o Melhor Filme também.

Quando olhamos para as corridas aos prémios de atores, temos um grande contraste entre as performances “principais” e as “secundárias”. Por exemplo, no Óscar de Melhor Ator Principal não há basicamente suspense nenhum. Leonardo DiCaprio não é o favorito para ganhar, Leonardo DiCaprio vai ganhar. A corrida acabou. Para Melhor Atriz Principal, a corrida está um pouco menos definida, mas essencialmente reduzida a duas jovens promessas: Brie Larson e Saoirse Ronan.

A conversa fica um pouco mais confusa quando olhamos para os papéis secundários. Para Atriz Secundária, o instinto seria colocar Kate Winslet na liderança pelo seu excelente papel em “Steve Jobs”, até depois da vitória nos Golden Globes. Mas o consenso dos críticos vai antes para uma luta “feroz” entre Alicia Vikander e Rooney Mara. E se eu vos disser que há uma forte possibilidade de Jennifer Jason Leigh surpreender todos e “roubar” a estatueta? Isto tudo para vos dizer que está completamente em aberto.

Tal é a situação também no Óscar de Melhor Ator Secundário. A escolha emocional de muitos está a inclinar-se para premiar Sylvester Stallone pelo seu surpreendentemente profundo trabalho em “Creed”, podendo um Óscar neste papel poder servir como um remate muito simétrico a uma carreira que começou exatamente com o primeiro “Rocky”. Mas este prémio está tudo menos entregue. Se é verdade que Christian Bale e Mark Ruffalo deverão estar mais contentes só por serem nomeados, os outros dois nomeados estão completamente na luta – Tom Hardy pelo seu vilão em “The Revenant” e Mark Rylance pela subtileza do seu espião capturado em “Bridge of Spies”. Ainda assim, eu diria que muitos dos corações da Academia não vão conseguir resistir a dar o Óscar “de carreira” ao senhor Balboa.

 

Pedro Quedas

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O triunfo da ciência: “The Martian”

The Martian

Classificação: 9/10

Nomeações: 7 (Melhor Filme, Melhor Ator Principal, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Direção Artística, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som, Melhores Efeitos Visuais)

 

Há algo de prodigioso na proposta cinematográfica de “The Martian”. Na sua essência, é um filme que documenta o processo científico que um astronauta perdido em Marte usa para tentar sobreviver e, porventura, regressar ao nosso planeta. É um elogio à ciência disfarçado de aventura espacial que, nas mãos erradas, tinha tudo para ser impossivelmente confuso ou mesmo aborrecido. Mas resulta – caramba, se este filme resulta. Com uma mistura improvável de jargão científico com cinema clássico, Ridley Scott e Drew Goddard construíram aqui um dos melhores pedaços de puro entretenimento que passou pelas salas de cinema em 2015.

No centro desta aventura está a interpretação de Matt Damon. Num filme com temáticas tão voltadas para o futuro, é curioso como no seu centro está uma performance tão clássica. Mais do que grandes momentos dramáticos ou citações memoráveis, o trabalho de Damon neste filme é fundado em puro carisma. Estamos sozinhos com um astronauta na vastidão inóspita do planeta Marte e nunca deixamos de estar cativados com tudo o que ele faz. Mais do que o trabalho de um ator, é uma performance de uma estrela.

Não quer isto dizer que este seja necessariamente um remake de “Cast Away” no espaço. O filme vai alternando entre os momentos de sobrevivência solitária do astronauta Mark Watney e os esforços da NASA para, primeiro, perceber o que aconteceu e, depois, ajudar a resolver o problema. Tal como no caso do casting de Matt Damon para o protagonista, ter talentos como Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels ou Chiwetel Ejiofor nos papéis secundários ajuda muito a manter viva a narrativa.

Mas, aqui, a grande responsabilidade terá de ir para o brilhante argumento de Drew Goddard, adaptado do não menos brilhante romance homónimo de Andy Weir. Em ambas as obras, o segredo está no equilíbrio delicado entre ter ciência suficiente para dar um tom de veracidade técnica à aventura ao mesmo que vão pontuando momentos delicados com tiradas inesperadas de humor.

E aqui chegamos ao momento em que me sinto compelido a abordar uma das polémicas mais despropositadas desta “Oscar Season”. É “The Martian” uma comédia ou não? Em termos de Óscares, é uma questão irrelevante, mas a polémica instalou-se quando foi nomeado (e ganhou) na categoria de “Melhor Filme de Comédia/Musical” nos Golden Globes. E eu compreendo que pode parecer estranho um filme de ficção científica estar nesta categoria, mas onde está exatamente a linha que separa um “drama” de uma “comédia”? A definição simples seria que uma comédia tem como objetivo principal fazer-nos rir – e a verdade é que este é um dos filmes mais divertidos do ano. Mark Watney vai reagindo aos seus desafios exponencialmente mais letais com um sentido de humor que nunca desaparece. Saí da sala de cinema com um sorriso de orelha a orelha. Custa-me a crer que um filme que me provoca esta reação não seja uma comédia.

Em última instância, cómico ou dramático, “The Martian” é um excelente filme. É, acima de tudo, uma ode triunfal à ciência. Ciência positiva e humana, ciência que nos aproxima a todos. Ao longo da história, em qualquer narrativa que opõe o bem ao mal, a ciência costuma estar sempre do lado dos vilões. Os vilões são sempre os “doutores”, homens frios e calculistas que usam a racionalidade como forma de controlar a liberdade e beleza das emoções. Sociedades naturais são utopias, sociedades tecnológicas são distopias. Aqui temos um filme que mostra o lado positivo da ciência e os homens que fazem parte integral da sua natureza. Uma obra que demonstra que o triunfo do espírito humano não tem de ser uma oposição à ciência, mas antes uma consequência da mesma.

 

Pedro Quedas

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A arte no caos: “Mad Max Fury Road”

Mad Max Fury Road

Classificação: 9/10

Nomeações: 10 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Direção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Caracterização, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som, Melhores Efeitos Visuais)

 

Como é possível que um filme puro de ação seja uma das mais interessantes visões artísticas deste ano cinematográfico? Que uma história fundada no estereótipo clássico do anti-herói másculo e solitário tenha uma tão profunda mensagem feminista? Que um filme tão económico nas palavras consiga criar um subtil mas complexo novo mundo, povoado de singulares mitologias? “Mad Max: Fury Road” é tudo isto e muito mais. É um triunfo de execução que está tudo menos vazio de ideias. É, muito simplesmente, um dos melhores filmes do ano.

A história acompanha a viagem de “Mad Max” Rockatanski, um sobrevivente do holocausto nuclear, a tentar sobreviver num deserto pós-apocalíptico onde água e gasolina são bens raros e que motivam enormes guerras por controlo dos recursos entre gangues rivais com comportamentos… peculiares. Ou antes, esta é a história normal dos três primeiros filmes no “franchise”. Desta feita, George Miller presenteia-nos com algo um pouco diferente.

Neste filme, o estoico Max Rockatanski (impecavelmente interpretado por Tom Hardy) não é tanto o omnipresente herói da história quanto é o parceiro relutante de Imperator Furiosa, a verdadeira líder desta narrativa. Furiosa é encarnada por uma Charlize Theron que imbui a complexa personagem de uma força interior raramente vista (infelizmente) na maioria das personagens femininas em filmes de ação. É uma mulher determinada em vingar num mundo controlado por homens que nunca se deixa cair em clichés. A sua raiva é justificada, a sua luta é nobre, a sua força é incomparável.

Também crucial ao sucesso deste filme é o modo como Imperator Furiosa e “Mad Max” desenvolvem uma relação de profunda intimidade ao longo do filme. Com poucos diálogos, sem beijos ao pôr-do-sol ou declarações épicas de amor eterno. Para um filme tão bombástico, não deixa de ser curioso com uma das suas maiores forças é a subtileza. Subtileza no modo como as personagens evoluem e, ainda mais, no modo como o mundo da narrativa é construído. Bons filmes não precisam de longos diálogos expositivos para envolver o telespetador num futuro alternativo movido a “guzoline”.

Seria fácil criticar este filme por não ser mais que uma longa perseguição de carros para um lado – seguida de uma longa perseguição de carros para outro. Até certo ponto… é o que este filme é. Uma aparentemente interminável corrida numa tapeçaria de caos. Mas há arte neste caos, há génio na orquestração deste ballet de violência. Todas as nomeações “técnicas” que este filme conseguiu são completamente merecidas, mas fluem integralmente da mente brilhante de onde nasceu esta bizarra e improvável aventura. O veterano realizador australiano não perdeu nem um pouco do seu rasgo e irreverência com os seus 70 anos. Se o futuro é dos jovens, ninguém avisou George Miller.

 

Pedro Quedas

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“The Revenant” e “Mad Max: Fury Road” lideram as nomeações aos Óscares

Nomeações Óscares 2016

Depois do sucesso incrível que teve o ano passado com “Birdman”, Alejandro G. Iñárritu volta à carga com “The Revenant”, liderando as nomeações aos Óscares com 12. Segue-se o incomparavelmente frenético “Mad Max: Fury Road”, de George Miller, com 10 nomeações. A completar o “pódio”, temos de “The Martian”. O filme de Ridley Scott arrecadou 7 nomeações. As grandes surpresas desta lista foram a exclusão de “Carol”, de Todd Haynes, dos nomeados a Melhor Filme e a inclusão de Lenny Abrahamson (“Room”) nos nomeados a Melhor Realizador.

Segue a lista completa dos nomeados:

 

Melhor Filme

“The Big Short”

“Bridge of Spies”

“Brooklyn”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Room”

“Spotlight”

Melhor Realizador

Adam McKay, “The Big Short”

George Miller, “Mad Max: Fury Road”

Alejandro G. Iñárritu, “The Revenant”

Lenny Abrahamson “Room”

Tom McCarthy, “Spotlight”

Melhor Ator Principal

Bryan Cranston, “Trumbo”

Matt Damon, “The Martian”

Leonardo DiCaprio, “The Revenant”

Michael Fassbender, “Steve Jobs”

Eddie Redmayne, “The Danish Girl”

Melhor Atriz Principal

Cate Blanchett, “Carol”

Brie Larson, “Room”

Jennifer Lawrence, “Joy”

Charlotte Rampling, “45 Years”

Saoirse Ronan, “Brooklyn”

Melhor Ator Secundário

Christian Bale, “The Big Short”

Tom Hardy, “The Revenant”

Mark Ruffalo, “Spotlight”

Mark Rylance, “Bridge of Spies”

Sylvester Stallone, “Creed”

Melhor Atriz Secundária

Jennifer Jason Leigh, “The Hateful Eight”

Rooney Mara, “Carol”

Rachel McAdams, “Spotlight”

Alicia Vikander, “The Danish Girl”

Kate Winslet, “Steve Jobs”

Melhor Argumento Adaptado

Adam McKay e Charles Randolph, “The Big Short”

Nick Hornby, “Brooklyn”

Phyllis Nagy, “Carol”

Drew Goddard, “The Martian”

Emma Donoghue, “Room”

Melhor Argumento Original

Matt Charman, Joel & Ethan Coen, “Bridge of Spies”

Alex Garland, “Ex Machina”

Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, “Inside Out”

Tom McCarthy e Josh Singer, “Spotlight”

Andrea Berloff e Jonathan Herman, “Straight Outta Compton”

Melhor Fotografia

“Carol”, Ed Lachman

“The Hateful Eight”, Robert Richardson

“Mad Max: Fury Road”, John Seale

“The Revenant”, Emmanuel Lubezki

“Sicario”, Roger Deakins

Melhor Montagem

“The Big Short”, Hank Corwin

“Mad Max: Fury Road”, Margaret Sixel

“The Revenant”, Stephen Mirrione

“Spotlight”, Tom McArdle

“Star Wars: The Force Awakens”, Maryann Brandon e Mary Jo Markey

Melhor Filme de Animação

“Anomalisa”, Duke Johnson e Charlie Kaufman

“Boy And The World”, Alê Abreu

“Inside Out”, Pete Docter e Ronnie Del Carmen

“Shaun the Sheep”, Mark Burton e Richard Starzak

“When Marnie Was There”, Hiromasa Yonebayashi

Melhor Filme Estrangeiro

“Embrace of the Serpent”, Colombia

“Mustang”, France

“Son of Saul”, Hungary

“Theeb”, Jordan

“A War”, Denmark

Melhor Banda Sonora Original

“Bridge of Spies”, Thomas Newman

“Carol”, Carter Burwell

“The Hateful Eight”, Ennio Morricone

“Sicario”, Jóhann Jóhannsson

“Star Wars: The Force Awakens”, John Williams

Melhor Música Original

“Earned It” de “Fifty Shades of Grey”

“Til It Happens To You” de “The Hunting Ground”

“Writings on the Wall” de “Spectre”

“Manta Ray” de “Racing Extinction”

“Simple Song #3” de “Youth”

Melhor Direção Artística

“Bridge of Spies”

“The Danish Girl”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

Melhor Guarda-Roupa

“Carol”

“Cinderella”

“The Danish Girl”

“Mad Max: Fury Road”

“The Revenant”

Melhor Caracterização

“The 100-Year-Old Man Who Climbed out the Window and Disappeared”

“Mad Max: Fury Road”

“The Revenant”

Melhor Documentário

“Amy”

“Cartel Land”

“The Look of Silence”

“What Happened, Miss Simone?”

“Winter on Fire”

Melhor Documentário, Curta-Metragem

“Body Team 12”

“Chau Beyond the Lines”

“Claude Lanzmann”

“A Girl in the River”

“Last Day of Freedom”

Melhor Curta-Metragem, Animação

“Bear Story”

“Prologue”

“Sanjay’s Super Team”

“We Can’t Live Without Cosmos”

“World of Tomorrow”

Melhor Curta-Metragem, Live Action

“Ave Maria”

“Day One”

“Everything Will Be Okay”

“Shok”

“Stutterer”

Melhor Montagem de Som

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Sicario”

“Star Wars: The Force Awakens”

Melhor Mistura de Som

“Bridge of Spies”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Star Wars: The Force Awakens”

Melhores Efeitos Visuais

“Ex-Machina”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Stars Wars: The Force Awakens”

 

Pedro Quedas

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