Viagens ao centro da alma: “Inside Out” / “Ex Machina”

Inside Out + Ex Machina

 

Inside Out

Classificação: 10/10

Nomeações: 2 (Melhor Argumento Original, Melhor Filme de Animação)

Este filme é mágico. Deixou-me a alma em desalinho e atou-me a emoção em nós apertados. Um filme de animação com criaturinhas coloridas com vozes engraçadas causou-me um impacto emocional que, até agora, ainda não foi rivalizado. Esta obra-prima da Pixar transporta-nos para o centro da mente de uma criança a entrar na adolescência e antropomorfiza as suas emoções em entidades separadas que estão sempre em conflito para “controlo” do seu comportamento. Aquilo que podia não ser mais que uma premissa brilhante com potencial cómico (e, não nos enganemos, tem mesmo muita piada), transforma-se, nas mãos dos realizadores Pete Docter e Ronnie Del Carmen, numa profunda reflexão sobre como tendemos a suprimir os nossos verdadeiros sentimentos em prol de uma falsa sensação de felicidade. Vários psicólogos infantis já afirmaram que “Inside Out” retrata de uma forma quase perfeita a evolução da psique humana – e o modo como a nossa personalidade não é apenas um produto estanque da nossa genética mas antes vai evoluindo com o confronto com as realidades da vida e a interação com outros seres humanos. Todo o elenco de vozes no filme está impecável, mas destacam-se as performances de Amy Poehler (“Alegria”) e Phyllis Smith (“Tristeza”). O modo como interagem uma com a outra é a espinha dorsal desta viagem e consegue a proeza de nos fazer rir e chorar quase simultaneamente. Muito mais haveria a dizer sobre um filme tão incrivelmente rico como este, mas para quê perder mais tempo quando já tudo foi dito logo no início desta crítica? Este filme é mágico.

 

Ex Machina

Classificação: 9/10

Nomeações: 2 (Melhor Argumento Original, Melhores Efeitos Visuais)

O que nos torna humanos? Que qualidade intrínseca e inimitável nos distingue de outros animais e de qualquer outra tentativa de reproduzir a condição humana? Esta é uma questão de base na melhor ficção científica, desde livros a filmes como “A.I. Artificial Intelligence” ou “Blade Runner”. E é também essa dúvida existencial que dá gás a esta muito auspiciosa estreia do argumentista Alex Garland atrás da câmara. Alicia Vikander é a verdadeira estrela desta fábula tecnológica, mas que não se pense que Oscar Isaac ou Domhnall Gleeson ficam atrás. O coração por trás deste misterioso conto de computadores, sexo e (muito humanas) traições, bate a três – mesmo se considerarmos que uma das três partes desse coração tem fios e chips em vez de veias e sangue. É difícil explicar a narrativa deste filme sem estragar a experiência a quem ainda não o viu, mas posso dizer que envolve o Teste de Turing mais interativo alguma vez criado – e o modo como esse teste pode afetar tanto a “máquina” como o homem que a está a testar. Onde reside o génio de Garland nesta obra é no modo como ele consegue fazer-nos duvidar de tudo e de todos. O que vemos em cena raramente é exatamente o que parece apesar de, no fim, tudo fazer o mais claro dos sentidos. Certos filmes querem atingir-nos emocionalmente, puxar pelos fios do nosso coração. Outros têm as suas miras apontadas a algo mais cerebral, querem-nos deixar a pensar quando saímos da sala de cinema. “Ex Machina” é uma daquelas raras preciosidades que tentam – e conseguem – fazer ambos. A elegância com que o consegue é o que torna este um dos melhores filmes do ano.

 

Pedro Quedas

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Críticas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s