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E o Óscar vai para… – Previsões oficiais dos Óscares de 2016

Previsões Finais

Desde que comecei a fazer este desafio com os meus leitores que nunca tive tantas dúvidas quanto às minhas escolhas na categoria que mais interessa acertar – Melhor Filme. Como sempre, temos algumas categorias mais óbvias (*cough*DiCaprio*cough*) e outras que nos deixam com a cabeça a doer, mas é esse o prazer masoquista de tentar fazer estas previsões. Esta é uma noite em que antevejo “The Revenant” sair como o grande vencedor, mas com o mesmo número de Óscares de “Mad Max: Fury Road”. Seja como for, será uma noite com suspense até ao último segundo. Assim, a minha maior previsão é que as empresas portuguesas na próxima segunda-feira vão estar povoadas por um número inusitado de zombies com insónias. Sem mais demoras, as minhas previsões:

 

Melhor Filme

“The Big Short”

“Bridge of Spies”

“Brooklyn”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant” – As minhas previsões começam com, provavelmente, a corrida mais difícil de prever em toda a competição. “Spotlight” começou a “corrida” como o claro favorito – e conta com vitórias nos prémios dos argumentistas e, acima de tudo, o prémio de Melhor Elenco do sindicato dos atores (normalmente, um excelente indicador para Melhor Filme, dado que a classe mais representada dos membros da Academia são os atores). Depois temos “The Big Short”, que também foi premiado pelo seu argumento e foi o surpreendente vencedor do prémio do sindicato dos produtores, uma das melhores “bolas de cristal” para o grande prémio. E, no entanto, eu acho que, nesta corrida incrivelmente apertada a três, vai ganhar “The Revenant”. Durante toda a corrida hesitei em aceitar que a Academia iria premiar o mesmo realizador dois anos seguidos (algo que não acontece desde os anos 50 – se ganhar Melhor Filme e Melhor Realizador dois anos seguidos, Alejandro G. Iñárritu será o primeiro a fazê-lo), mas o “momentum” está todo do lado dele, depois de vitórias nos Golden Globes, nos BAFTA e, acima de tudo, depois de Iñárritu ter saído vencedor no duelo dos prémios dos realizadores. É a escolha mais difícil da noite, mas acredito que se vai fazer história nestes Óscares.

“Room”

“Spotlight”

Melhor Realizador

Adam McKay, “The Big Short”

George Miller, “Mad Max: Fury Road”

Alejandro G. Iñárritu, “The Revenant” – Embora não possamos necessariamente dizer que esteja entregue, este prémio será um pouco mais fácil de prever. Apenas dois dos nomeados estão verdadeiramente na luta e um deles tem arrecadado todos os prémios relevantes a caminho dos Óscares. Seria muito interessante ver um veterano como George Miller ganhar a estatueta pelo seu inspirado trabalho num dos mais desconcertantes e originais filmes de pura ação das últimas décadas, mas não vejo outra pessoa a ganhar que não Alejandro G. Iñárritu. Mesmo com a “desvantagem” de alguns votantes poderem achar excessivo ele ganhar dois Óscares seguidos, o realizador mexicano é o claro favorito.

Lenny Abrahamson “Room”

Tom McCarthy, “Spotlight”

Melhor Ator Principal

Bryan Cranston, “Trumbo”

Matt Damon, “The Martian”

Leonardo DiCaprio, “The Revenant” – Antes de voltarmos às dores de cabeça, vamos fazer uma pequena pausa para atribuirmos alguns dos prémios mais óbvios da noite. Leonardo DiCaprio vai ganhar o Óscar. Vou repetir, para que fique bem claro. Leonardo DiCaprio vai ganhar o Óscar. Está entregue. Principalmente num ano em que a concorrência não está especialmente feroz. A haver alguma surpresa, eu colocaria o meu dinheiro em Matt Damon, mas não vai haver nenhuma surpresa. Leonardo DiCaprio vai ganhar o Óscar. O único elemento de surpresa aqui será a quem vai agradecer no discurso.

Michael Fassbender, “Steve Jobs”

Eddie Redmayne, “The Danish Girl”

Melhor Atriz Principal

Cate Blanchett, “Carol”

Brie Larson, “Room” – Embora a narrativa de “finalmente vamos poder-lhe dar o Óscar que tanto merece” não esteja tão presente aqui, também Brie Larson tem a passadeira vermelha estendida para o prémio. O seu papel central na principal surpresa do ano, o poderoso “Room”, tem sido premiado ao longo de toda a temporada “oscariana” e não há qualquer razão para achar que vai acontecer de outra forma. A possibilidade de haver uma surpresa nesta categoria é um pouco maior que na de Ator Principal, mas continua a ser minúscula. A acontecer, seria com Saoirse Ronan, mas não acredito, de todo, que vá acontecer.

Jennifer Lawrence, “Joy”

Charlotte Rampling, “45 Years”

Saoirse Ronan, “Brooklyn”

Melhor Ator Secundário

Christian Bale, “The Big Short”

Tom Hardy, “The Revenant”

Mark Ruffalo, “Spotlight”

Mark Rylance, “Bridge of Spies”

Sylvester Stallone, “Creed” – Nas categorias de atores e atrizes, nenhuma corrida é mais apertada que esta. Este ano torna-se ainda mais difícil de prever, dado que o sindicato dos atores premiou Idris Elba, em “Beasts of No Nation”. Assim, o que escolher? Tanto Mark Ruffalo como Mark Rylance têm óptimas possibilidades de roubar este prémio, mas estou em crer que a Academia não vai conseguir resistir a fechar o conto de fadas musculado que tem sido a vida e carreira de Sylvester Stallone com a chave de ouro de um Óscar. É essa a minha previsão mas, se querem ganhar um concurso de apostas com uma escolha meio fora e tentar acertar no “upset” na noite, esta é a categoria para arriscar.

Melhor Atriz Secundária

Jennifer Jason Leigh, “The Hateful Eight”

Rooney Mara, “Carol”

Rachel McAdams, “Spotlight”

Alicia Vikander, “The Danish Girl”Rooney Mara está ali à espreita para fazer uma surpresa. Kate Winslet era a favorita no início da “campanha” e conta com um Golden Globe e um BAFTA na sua sacola. Mas, principalmente após a sua vitória junto do sindicato dos atores, a grande favorita à vitória é Alicia Vikander. A atriz sueca, que também esteve em grande destaque este ano em “Ex Machina”, teve uma das performances mais vistosas dentro desta categoria e está claramente na liderança. O que é questionável é que o seu papel ou de Rooney Mara sejam “secundários”, mas as maquinações da indústria para chegar aos Óscares são todo um outro texto que poderia ser escrito.

Kate Winslet, “Steve Jobs”

Melhor Argumento Adaptado

Adam McKay e Charles Randolph, “The Big Short” – Esta é uma categoria onde não há falta de bons argumentos, mas antes falta de concorrentes credíveis à vitória. “The Big Short” chega a esta categoria com três grandes fatores que indicam o seu favoritismo. Primeiro, saiu vencedor nos prémios do sindicato dos argumentistas. Segundo, tem sido (justamente) elogiado pelo modo como conseguiu tornar as complexas maquinações financeiras que originaram a crise num texto dinâmico, fácil de compreender e até, a espaços, divertido. Por fim, se se confirmar a vitória de “The Revenant” como Melhor Filme, os membros da Academia deverão encarar esta estatueta como um bom prémio de consolação.

Nick Hornby, “Brooklyn”

Phyllis Nagy, “Carol”

Drew Goddard, “The Martian”

Emma Donoghue, “Room”

Melhor Argumento Original

Matt Charman, Joel & Ethan Coen, “Bridge of Spies”

Alex Garland, “Ex Machina”

Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, “Inside Out”

Tom McCarthy e Josh Singer, “Spotlight” – Outro argumento que, sendo na mesma excelente, deverá ganhar mais como consolação pela derrota na estatueta mais cobiçada. O facto de ter ganho junto das premiações dos argumentistas cimenta ainda o seu estatuto de liderança nesta “corrida”. O maior concorrente que Tom McCarthy e Josh Singer vão, provavelmente, enfrentar será o brilhante texto do aclamado “Inside Out”, mas, dado que um filme de animação nunca saiu vencedor em qualquer categoria de Melhor Argumento, esta é uma hipótese muito, muito remota.

Andrea Berloff e Jonathan Herman, “Straight Outta Compton”

Melhor Fotografia

“Carol”, Ed Lachman

“The Hateful Eight”, Robert Richardson

“Mad Max: Fury Road”, John Seale

“The Revenant”, Emmanuel Lubezki

“Sicario”, Roger Deakins

Melhor Montagem

“The Big Short”, Hank Corwin

“Mad Max: Fury Road”, Margaret Sixel

“The Revenant”, Stephen Mirrione

“Spotlight”, Tom McArdle

“Star Wars: The Force Awakens”, Maryann Brandon e Mary Jo Markey

Melhor Filme de Animação

“Anomalisa”, Duke Johnson e Charlie Kaufman

“Boy And The World”, Alê Abreu

“Inside Out”, Pete Docter e Ronnie Del Carmen

“Shaun the Sheep”, Mark Burton e Richard Starzak

“When Marnie Was There”, Hiromasa Yonebayashi

Melhor Filme Estrangeiro

“Embrace of the Serpent”, Colombia

“Mustang”, France

“Son of Saul”, Hungary

“Theeb”, Jordan

“A War”, Denmark

Melhor Banda Sonora Original

“Bridge of Spies”, Thomas Newman

“Carol”, Carter Burwell

“The Hateful Eight”, Ennio Morricone

“Sicario”, Jóhann Jóhannsson

“Star Wars: The Force Awakens”, John Williams

Melhor Música Original

“Earned It” de “Fifty Shades of Grey”

“Til It Happens To You” de “The Hunting Ground”

“Writings on the Wall” de “Spectre”

“Manta Ray” de “Racing Extinction”

“Simple Song #3” de “Youth”

Melhor Direção Artística

“Bridge of Spies”

“The Danish Girl”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

Melhor Guarda-Roupa

“Carol”

“Cinderella”

“The Danish Girl”

“Mad Max: Fury Road”

“The Revenant”

Melhor Caracterização

“The 100-Year-Old Man Who Climbed out the Window and Disappeared”

“Mad Max: Fury Road”

“The Revenant”

Melhor Documentário

“Amy”

“Cartel Land”

“The Look of Silence”

“What Happened, Miss Simone?”

“Winter on Fire”

Melhor Documentário, Curta-Metragem

“Body Team 12”

“Chau Beyond the Lines”

“Claude Lanzmann”

“A Girl in the River”

“Last Day of Freedom”

Melhor Curta-Metragem, Animação

“Bear Story”

“Prologue”

“Sanjay’s Superteam”

“We Can’t Live Without Cosmos”

“World of Tomorrow”

Melhor Curta-Metragem, Live Action

“Ava Maria”

“Day One”

“Everything Will Be Okay”

“Shok”

“Stutterer”

Melhor Montagem de Som

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Sicario”

“Star Wars: The Force Awakens”

Melhor Mistura de Som

“Bridge of Spies”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Star Wars: The Force Awakens”

Melhores Efeitos Visuais

“Ex-Machina”

“Mad Max: Fury Road”

“The Martian”

“The Revenant”

“Stars Wars: The Force Awakens”

 

PS: Não se esqueçam de fazer as vossas previsões de quem vai ganhar este ano e participar no Oscar Challenge 2016. Vejam o que têm de fazer clickando aqui.

 

Pedro Quedas

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Um estudo em abundância: Os melhores dos Óscares de 2016

Favoritos Pessoais

Talvez o diga todos os anos, mas esta fornada de filmes nomeados aos Óscares foi especialmente notável. Filmes de grande ambição e de pequenos momentos, performances bombásticas e subtis, textos intelectualmente notáveis e emocionalmente devastadores. Estive para me recusar a fazer escolhas em algumas destas categorias mas acabei por cumprir o meu “dever”. Reservo-me o direito de mudar de opinião de dia para dia. Sem mais demoras, segue a lista dos meus favoritos deste ano:

 

Melhor Filme – Spotlight: Este ano teve um pouco de tudo – e tudo excelente. Tivemos filmes “mainstream” a mostrar que o “mainstream” não tem de apelar ao denominador mais baixo. Tivemos épicos de enorme ambição visual e pequenos frescos do melhor e pior na condição humana. E, no topo da minha lista, um exemplo de como termos tão pouco “sexy” como economia e contenção podem confluir num clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes dos últimos anos. Sem nunca se deixar cair na grandeza dos seus temas, “Spotlight” recorda-nos, numa era de desinformação e relativização dos factos, da importância da verdade. Tal como os jornalistas que tão bem representou, Tom McCarthy assume como a sua única missão revelar ao telespectador a verdade do que aconteceu em Boston no início do século. A sua arte está na sua ausência de pretensão e no modo como desaparece por trás da câmara e deixa a história falar por si. Num ano de grandes filmes, esta pequena grande obra ascendeu ao topo.

 

Melhor Realizador – George Miller, Mad Max Fury Road: Todos os realizadores nesta categoria foram responsáveis por filmes absolutamente incríveis. Não me canso de o repetir – este foi um ano fortíssimo para os Óscares. Assim, dou por mim a inclinar-me para “premiar” o realizador que mais imprimiu a sua visão no produto final. E, assim, a escolha óbvia é George Miller. “Mad Max Fury Road” tinha tudo para ser um filme fixe, mas foi o talento de Miller que o tornou um dos filmes de ação mais essenciais na história do género. Na sua mão, ficou provado que um blockbuster não tem de ser básico ou preso a fórmulas. A sua visão de “Mad Max” é estranha e idiossincrática, simultaneamente um filme “para gajos” e um manifesto feminista. Mais ninguém podia ter feito este filme. Mais ninguém tem este nível de criatividade. Mais ninguém merece mais um Óscar.

 

Melhor Ator Principal – Leonardo DiCaprio, The Revenant: De um lado, temos nomeados como Bryan Cranston (“Trumbo”) ou Matt Damon (“The Martian”), cujas performances são o produto de estrelas, fundadas em doses disparatadas de carisma. Do outro, os trabalhos camaleónicos de Michael Fassbender (“Steve Jobs”) e Eddie Redmayne (“The Danish Girl”). E depois temos Leonardo DiCaprio. O que podemos dizer acerca do seu papel em “The Revenant” que fique claro em texto? Como usar palavras para elogiar uma performance que não as usa? Não sei se será a melhor prestação da carreira deste incrível talento, mas é a mais visceral – a que melhor finta as nossas resistências e nos ataca o coração com a mesma ferocidade que certos animais selvagens. Este ano de cinema não seria o mesmo sem a insana entrega física e emocional de DiCaprio neste papel.

 

Melhor Atriz Principal – Brie Larson, Room: De todas as cinco nomeadas, apenas Jennifer Lawrence não está perto nesta “corrida à minha preferência”. Nomes consagrados como Cate Blanchett (“Carol”) ou Charlotte Rampling (“45 Years”) tiveram excelentes anos mas este ano foram as jovens promessas a cativar mais a minha atenção. As escolhas artísticas de Saiorse Ronan (“Brooklyn”) e Brie Larson (“Room”) são tão completamente diferentes, que nem me sinto especialmente bem a ter de escolher uma. Em última instância, acabo por gravitar para Larson, especialmente pela mágica química que estabelece em cena com o muito jovem Jacob Tremblay. Mais do que um “grande momento de Óscar”, o seu desempenho é uma coleção de pequenos momentos de emoções duras e reações subtis. Uma revelação a todos os níveis.

 

Melhor Ator Secundário – Mark Ruffalo, Spotlight: Num filme tão fundado na sua contenção emocional e na procura racional e objetiva da verdade, o Mike Rezendes de Mark Ruffalo é o rasgo de emoção que lhe dá mais sangue nas veias. Para além do trabalho impressionante de metamorfose física e comportamental, é no dinamismo emocional que a performance de Ruffalo se destaca. Mais um grande ano para um dos melhores atores de Hollywood, que acaba por ter a maior concorrência (no meu coração) por parte de um veterano do teatro inglês – o excelente e inescrutavelmente misterioso Mark Rylance, na sua encarnação do famoso espião russo de “Bridge of Spies”.

 

Melhor Atriz Secundária – Kate Winslet, Steve Jobs: Nada como o texto de Aaron Sorkin para criar essencialmente um “grilo falante” no contexto de um biopic sobre Steve Jobs. Kate Winslet agarra esse (potencialmente) ingrato mas essencial papel com unhas e dentes, navegando as supersónicas reviravoltas do texto “sorkiniano” com uma mestria que remonta ao carisma inqualificável das maiores estrelas da Era Dourada de Hollywood. Ainda hesitei em colocar o excelente desempenho de Alicia Vikander (“The Danish Girl”) neste lugar, mas foram as palavras (e olhares conhecedores) da Joanna Hoffman de Winslet as que mais me marcaram neste recheado ano de cinema.

 

Melhor Argumento Adaptado – Adam McKay e Charles Randolph, The Big Short: Mais do que ser apenas uma lista de escolhas de grande qualidade, esta categoria está recheada de argumentos ecléticos. Subtis e intensos, melancólicos e cómicos, estes textos percorrem todo o espectro da vida neste planeta (e até fora dele). Sendo que tenho de fazer uma escolha, acho que “The Big Short” foi o melhor deste ano, especialmente pelo modo criativo e dinâmico como conseguiram dar ritmo e interesse a uma história sobre a crise do “sub prime”. Adam McKay foi um dos nomes mais surpreendentes a aparecer nesta fornada de filmes nomeados e gostaria de vê-lo a ser premiado pela fascinante corda bamba de investimentos emocionais que conseguiu criar neste filme.

 

Melhor Argumento Original – Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, Inside Out: Esta escolha é absolutamente demoníaca. Quando o brilhante argumento de “Spotlight” nem sequer entra nas minhas equações, sabemos que estamos perante algo de especial. O argumento de Alex Garland para “Ex Machina” é um dos mais brilhantes textos de especulação filosófica dos últimos anos da ficção científica. Em qualquer outro ano, seria o líder destacado nas minhas preferências. Mas como posso eu escolher outro filme que “Inside Out”? A minha maior tristeza nestes Óscares foi não ver “Inside Out” entre os nomeados a Melhor Filme e continua a ser o meu filme favorito do ano que passou. E uma das maiores razões é este fenomenal argumento, que consegue tão delicadamente materializar as impossivelmente complexas maquinações do cérebro de uma criança em crescimento. Este filme não me fez apenas rir e chorar – fez-me sentir. Um Óscar seria o mínimo agradecimento possível.

 

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Pedro Quedas

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Vitória (quase) anunciada: “Amour” e o confuso historial do Óscar mais imprevisível

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Os Óscares são, essencialmente, uma celebração do cinema norte-americano. Ou antes, do cinema falado em inglês, dado que muitos dos vencedores no historial da cerimónia têm vindo das ilhas britânicas. Quanto mais depressa aceitarmos essa realidade, mais depressa podemos largar o discurso batido de como os americanos não ligam a nada fora do seu país. O ano cinematográfico não tem falta de festivais de âmbito internacional. Apesar de bastantes filmes estrangeiros terem tido nomeações no longo historial da cerimónia, esta é a festa de Hollywood. Não quer disto dizer, no entanto, que não haja espaço nos Óscares para reconhecer o talento em todo o mundo, especialmente com a criação, em 1956, do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro.

O grande candidato à vitória este ano é, obviamente, “Amour”, do realizador austríaco Michael Haneke, que não só foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro mas também para Melhor Actriz Principal (Emmanuelle Riva), Melhor Argumento Original e Melhor Realizador (ambos para Haneke), e, acima de tudo, Melhor Filme. Sendo que é pouco provável que o inesperado nomeado tenha alguma hipótese realista de conquistar o galardão principal, um filme com este currículo deverá ter a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro basicamente entregue, certo? Bem… sim, mas é importante não esquecer que esta categoria é conhecida como sendo a mais imprevisível de toda a cerimónia.

A verdade é que os vencedores na categoria de Melhor Filme Estrangeiro nem sempre tendem a seguir o que possa parecer a escolha mais óbvia. Os exemplos são variados e com diversos graus de surpresa. “Amélie”, em 2001, não só foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro mas também para mais quatro categorias (não muito normal para filmes estrangeiros), mas acabou por perder para “No Man’s Land”, da Bósnia Herzegovina. “Pan’s Labyrinth” foi nomeado para seis Óscares e até venceu em três categorias (Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia e Melhor Caracterização”), mas o filme de Guillermo Del Toro foi vencido pelo êxito alemão “The Lives of Others”. E como esquecer os clássicos “Il Postino”, de Itália, ou “Cries and Whispers”, do sueco Ingmar Bergman, que foram nomeados para Melhor Filme (com múltiplas outras nomeações) e nem sequer conseguiram ser nomeados para Melhor Filme Estrangeiro?

Historicamente, o que “Amour” tem a seu favor é o facto de todos os filmes estrangeiros que foram nomeados duplamente para Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro conquistaram a segunda estatueta. Assim, podemos contar como quase garantido que o filme de Michael Haneke se vai juntar a um panteão que inclui clássicos como “Z”, de Costa-Gravas, “Crouching Tiger, Hidden Dragon”, de Ang Lee, ou “Life is Beautiful”, de Roberto Begnini, que acumulou também o Óscar de Melhor Actor e um dos mais loucos discursos de vitória de sempre. Ficaremos a esperar pela reacção do consideravelmente mais “sério” realizador austríaco.

 

Pedro Quedas

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