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Quem vai sair no topo do Oscar Challenge 2016?

Oscar Challenge 2016

E aqui estamos mais uma vez – o “Oscar Challenge” do “Na Rota dos Óscares” está de volta. O objetivo? Simples – vocês fazem as previsões sobre quem vai ganhar em cada categoria, eu contabilizo os resultados após a cerimónia e anuncio o vencedor.

As regras são as seguintes:

1 – Vão reparar que cada categoria no boletim de voto tem uma pontuação associada. Isto acontece para privilegiar mais quem acerta em categorias como Melhor Filme ou Melhor Atriz do que quem acerta em Melhor Montagem de Som – sejam sinceros, vai ser sempre ser um pouco à sorte. O vencedor não é necessariamente quem acertou mais categorias mas antes quem acumulou mais pontos.

2 – Para votar, basta colocar uma cruz no quadrado imediatamente atrás no ficheiro excel com as categorias. Se quiserem, podem votar em dois dos nomeados mas, se acertarem num deles, só terão metade dos pontos disponíveis nessa categoria. A melhor estratégia é vossa para escolher.

3 – Em caso de empate, ganha quem acertou mais categorias na coluna da esquerda do boletim. Se o empate se mantiver, ganha quem acumulou mais pontos nessa coluna e, a seguir, se o miserável empate persistir, quem acertou mais categorias no total.

4 – Por fim, o procedimento para concorrer é simples. Basta fazer o download do boletim de voto, preencher o ficheiro com as vossas cruzinhas, guardar as vossas respostas e reenviá-lo para narotadososcares@gmail.com. Não se esqueçam de colocar o vosso nome ou no ficheiro ou no email, para eu saber a quem atribuo as pontuações devidas. O prazo limite de envio de respostas é até ao início da cerimónia dos Óscares, mas podem começar já a fazer os vossos palpites.

O download do boletim de voto em Excel pode ser feito aqui: Oscar Challenge 2016

Assim, agora está tudo nas vossas mãos. Façam as vossas escolhas e vejam se me conseguem bater nas vossas previsões. Tal como na corrida aos Óscares deste ano, o vencedor está totalmente em aberto.

Pedro Quedas

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Dúvidas, questões e indecisões

Update Corrida

Multiple question marks on paper

A pouco mais de uma semana de chegarmos ao momento pelo qual temos todos esperado, ocorre-me que já há algum tempo que não olho para o estado da corrida. Estou convicto que, passado este tempo todo, já teremos uma noção muito mais concreta de quem está na liderança para as tão desejadas estatuetas. E, depois de olhar para as minhas pesquisas, apercebo-me que… continua tudo incrivelmente no ar.

O Producers Guild of America Awards costumam ser um dos melhores presságios para percebermos quem será o vencedor na categoria de Melhor Filme. Portanto, com a vitória de “The Big Short” nesses prémios, deveremos ter aí o nosso favorito, certo? Bem, para termos a certeza, vamos ver quem ganhou o “Best Ensemble Cast” nos prémios do sindicatos dos atores, outro indicador que costuma estar quase sempre em sintonia com o Melhor Filme dos Óscares. E, nesses prémios, quem ganhou foi… “Spotlight”. Ok.

Para juntar a confusão, ainda temos “The Revenant”. Tenho sido sempre da opinião que tanto este filme como o seu realizador, Alejando G. Iñárritu, não terão grandes hipóteses este ano, dado que o mexicano ganhou no ano passado, com “Birdman”, e, a ganhar este ano, seria o primeiro realizador a ganhar dois anos consecutivos desde os tempos dos lendários John Ford e Joseph L. Mankiewicz. Mas, com vitórias nos Golden Globes, BAFTA e Directors Guild of America Awards, Iñárritu está claramente na corrida e é o favorito pelo menos na categoria de Melhor Realizador. O seu grande rival aí deverá ser George Miller, com “Mad Max: Fury Road”.

Já na categoria dos atores e atrizes, a coisa torna-se um pouco menos confusa – até certo ponto. Nas categorias “principais” é onde temos mais clareza de onde o voto se está a inclinar. Seria preciso uma das maiores reviravoltas de tendência de voto de sempre para impedir Leonardo DiCaprio (“The Revenant”) e Brie Larson (“Room”) de levarem para casa os Óscares de Melhor Ator Principal e Melhor Atriz Principal. Poucos Óscares estão tão “entregues” à chegada à cerimónia.

É nas performances secundárias que a coisa fica mais interessante. Para Melhor Atriz Secundária, a favorita é Alicia Vikander (“The Danish Girl”), principalmente depois da sua vitória nos Screen Actors Guild Awards. A sua grande rival continua a ser Kate Winslet com “Steve Jobs”, que saiu vencedora nos Golden Globes e nos BAFTA e era considerada a leve favorita no início da corrida, antes de Vikander começar a ter cada vez atenção pelo seu papel.

E o que dizer acerca do Óscar de Melhor Ator Secundário? Primeiro, que o vencedor nos prémios do sindicato dos atores não significa nada, dado que três dos cinco nomeados nesses prémios eram diferentes dos nomeados para os Óscares – e o vencedor acabou por ser um deles, com Idris Elba (“Beast of No Nation”) a sair no topo. Olhando para os Óscares, o favorito emocional é Sylvester Stallone, mas esta categoria tem muita e boa competição. Mark Rylance (“Bridge of Spies”) e Mark Ruffalo (“Spotlight”) são considerados os principais concorrentes mas, francamente, tanto Christian Bale (“The Big Short”) como Tom Hardy (se a noite começar a pender para o lado de “The Revenant”) podem perfeitamente ganhar. Mais do que qualquer outra “corrida oscariana” de que tenho memória, este prémio está completamente no ar.

 

Pedro Quedas

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Tiros certeiros e tiros no pé: “Joy” / “Straight Outta Compton” / “45 Years”

Joy + Straight Outta Compton + 45 Years

Joy

Classificação: 6/10

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

O que temos aqui é um filme que parece determinado a dar um tiro no pé a cada esquina que contorna. David O. Russell é um realizador polarizador – e eu tendo a estar no seu canto, mas não sei bem o que dizer do que vi aqui. A história de Joy Mangano, inventora norte-americana que esteve na origem da ascensão das vendas por televisão, até podia ter dado um filme interessante, mas não desta forma. Sempre que o filme parece estar a entrar no rumo certo, deixa-se cair num pântano de clichés. Apenas o comportamento deplorável da família de Joy parece fugir ao estereótipo deste género de filme, mas acaba por ser um estereótipo diferente, “normal” nos filmes de David O. Russell. Adicionalmente, a narração colocada à força por cima da história vangloriando a protagonista é tão despropositada que, a espaços, parece uma paródia de si mesma. A única razão porque este filme não é pior é devido ao carisma de Jennifer Lawrence. Mesmo em cenas que têm tudo para resvalar para a desgraça, a presença magnética de Lawrence faz com que resultem. É tão inegável o seu talento quanto o facto de ser quase totalmente desperdiçado neste filme.

 

Straight Outta Compton

Classificação: 8/10

Nomeações: 1 (Melhor Argumento Original)

Mais do que qualquer outra coisa, “Straight Outta Compton” é um triunfo de casting. Não só os atores escolhidos para interpretar os vários membros do lendário coletivo de hip hop NWA são muito parecidos com eles fisicamente, como acabam por ter quase todos interpretações muito fortes e carismáticas. Jason Mitchell tem o papel mais complexo como Eazy-E, mas é impecavelmente acompanhado por Corey Hawkins, que apresenta-nos um Dr. Dre simultaneamente excitado pelo sucesso meteórico que está a ter e assustado com o estilo de vida dos seus parceiros musicais pós-NWA que o rodeiam, especialmente o tenebroso Suge Knight. Mas o destaque maior terá de ir para O’Shea Jackson Jr., carismático no modo como encarna a personalidade explosiva de Ice Cube – ou não fosse ele o seu filho. Para além do casting, o filme é bom. Não é incrível, mas é bom. Acima de tudo, merece o crédito por não fugir a algumas das mais duras realidades da ascensão dos NWA no mundo do rap – ainda que branqueie algumas também, principalmente nos momentos finais do filme. Os ingredientes estavam aqui para ser um excelente filme – bom terá de chegar.

 

45 Years

Classificação: 7/10

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

O que fazer quando as fundações de um casamento de 45 anos começam a ruir com uma simples revelação? Mais, o que fazer quando nos apercebemos que as fundações já estavam a ruir há muito tempo – ou talvez nunca lá tenham estado? Só uma atriz com a experiência e talento de Charlotte Rampling conseguiria dar corpo e vida a uma emoção tão complexa e difícil de exteriorizar. O modo como o faz é uma das melhores partes deste “45 Years”, o novo filme de Andrew Haigh, também responsável pelo muito interessante “Weekend”. A evolução do comportamento entre Kate (Rampling) e Geoff (Tom Courtenay) é a espinha dorsal de um filme que vai, subtilmente, revelando surpresas completamente devastadoras. A pior coisa que podia ter acontecido a este filme seria ter descambado totalmente para o melodrama e degenerar num festival de berros e acusações, mas penso que acabou por se desnivelar demasiado para o outro lado. Há uma linha que separa o subtil do impenetrável e “45 Years” salta à corda com essa linha. Ainda assim, o desempenho de Charlotte Rampling é imperdível e um dos momentos altos do ano “oscariano”.

 

Pedro Quedas

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Legados: “The Hateful Eight” / “Creed”

The Hateful Eight + Creed

The Hateful Eight

Classificação: 8/10

Nomeações: 3 (Melhor Atriz Secundária, Melhor Fotografia, Melhor Banda Sonora)

Será justo penalizar um filme por não se comparar tão favoravelmente com a restante filmografia de um realizador que tem sido consistentemente brilhante? É esse o dilema com que me deparei quanto terminei o novo filme de Quentin Tarantino. Há muita coisa deliciosa em “The Hateful Eight”. O argumento está apimentado com muitas das reviravoltas narrativas e piruetas textuais  que Tarantino tão bem esgrima. Nem todos os atores estão igualmente bem, mas Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins e o omnipresente Samuel L. Jackson roubam algumas cenas com pura entrega e presença no ecrã. E a banda sonora, composta pelo lendário Ennio Morricone, é pura e simplesmente brilhante. Como é costume, as partes individuais de um filme de Tarantino são melhores e mais entusiasmantes que quase todo o restante cinema que se vê por aí. O que falta é a cola que os faz todos resultar. Está aqui a habitual criatividade visual e o deleite quase infantil com que o realizador encena momentos da mais imprevisível violência, mas tudo parece, desta feita, um pouco mais superficial. Um pouco mais sem sentido. Pode ser uma espiral interminável tentar forçar sentidos ou alegorias num filme de Tarantino. São obras que devem ser experienciadas, não apenas vistas. Mas este parece saber a pouco. É difícil especificar exatamente o que falha aqui, do mesmo modo que será difícil explicar a diferença entre beijar alguém de quem se gosta e alguém de quem se ama. Gostei deste filme. Estava à espera de o amar.

 

Creed

Classificação: 8/10

Nomeações: 1 (Melhor Ator Secundário)

“Rocky” começou como uma história de superação pessoal. Mais do que apenas um filme sobre boxe, era um conto de fadas moderno sobre como nenhum sonho é impossível de alcançar. Era um excelente filme, um clássico moderno. Depois vieram as sequelas. Algumas perfeitamente banais, outras incrivelmente divertidas, mas nenhuma delas com o mesmo espírito do original. Até que chegou este “Creed”. Michael B. Jordan é muito bom no papel do filho de Apollo Creed, o eterno rival e amigo de Rocky Balboa, e volta a entregar uma nova vida e determinação a um papel que tão facilmente podia ter caído no cliché. O realizador Ryan Coogler também merece grande parte do crédito pelo modo como se entregou a este projeto com o carinho de quem está a conversar com um amigo de infância com o qual nunca se perdeu o contacto – talvez a única crítica que se pode apontar a este filme é que, por vezes, esse tom de homenagem acaba por se tornar tão reverencial que torna a narrativa um pouco previsível. A ambição criativa nas cenas de combate acaba por nos fazer esquecer desses detalhes e envolver-nos no epicentro da pirotecnia visual e emocional em cada luta. Mas a grande nota de destaque que tenho de guardar para o fim é o impressionante desempenho de Sylvester Stallone como um (quase) acabado Rocky Balboa. Talvez inspirado pelo regresso a material que lhe é tão familiar, Stallone puxa de reservas emocionais que há muito tempo não explorava e prende-nos em cada frame em que aparece. Momentos que poderiam xaroposos em filmes (ou atores) menores, tornam-se profundamente sentidos e emocionais e deixaram este crítico completamente pregado ao ecrã. Uma das boas surpresas deste ano de cinema.

 

Pedro Quedas

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A luz na escuridão: “Room”

Room

Classificação: 9/10

Nomeações: 4 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Atriz Principal, Melhor Argumento Adaptado)

 

Por entre as frechas entreabertas do maior negrume que este mundo nos tem para oferecer, nascem por vezes momentos da mais pura beleza. Momentos de humanidade tão forte e genuína que iluminam o breu com uma intensidade maior que qualquer sol. “Room” é uma carta de amor à inesperada força da condição humana.

A invulgar beleza deste filme nasce da colaboração perfeita entre a criatividade visual do realizador Lenny Abrahamson e o puro impacto visceral do argumento de Emma Donoghue, adaptado da sua própria obra. É um trabalho rico de emoção e contenção, um filme que explora um tipo de sofrimento tão intenso que é um pequeno milagre nunca ter degenerado num festival de berros e choro descontrolado. Assim, quando esses berros e choros eventualmente transbordam à superfície, têm muito mais impacto porque são reais. Este é um filme sobre pessoas reais, não figuras de cartão.

Como tem sido a nota dominante nos filmes “oscarizáveis” deste ano, muitas destas grandes ideias e a sua impecável execução técnica seriam irrelevantes se não fossem acompanhadas de interpretações memoráveis. Inspirado nos tragicamente reais casos de jovens raptadas e repetidamente violadas pelos seus captores, “Room” segue a história da fictícia “Ma” (Brie Larson), uma jovem que, depois de ter um filho com o seu captor, encarrega-se, ao longo de cinco anos, de tentar proteger o seu filho da realidade horrível em que vivem, fazendo-o acreditar que todo o mundo real está confinado ao quarto onde ambos vivem e do qual nunca podem sair.

O trabalho de Brie Larson neste filme é absolutamente incrível. A sua maior virtude está no quão reais são as emoções que expressa, mas há algo de mais profundo ainda a borbulhar aqui. A sua performance começa contida e cheia de força, como forma da mãe lidar com a mentira que vai construindo para o filho, mas vai lentamente tornando-se mais frágil e tensa, à medida que a sua situação vai mudando e a adaptação a uma nova realidade lhe derruba as barreiras que demorou tanto e doloroso tempo a erguer.

Brie Larson é a atriz nomeada a um Óscar neste filme, mas deve muito do sucesso do seu papel também à belíssima química que consegue ter com o pequeno gigante que interpreta o seu filho. Jacob Tremblay, do alto dos seus 8 anos, é uma revelação. Não apenas devido ao seu impecável domínio dos maneirismos e confusão emocional de uma criança a aperceber-se que toda a sua realidade é uma ficção, mas acima de tudo da relação que constrói com a sua mãe.

Amor verdadeiro é quase impossível de “fingir” no grande ecrã. A magia deste filme está no modo como Brie Larson e Jacob Tremblay o conseguem retratar sem uma única nota falsa, sem um único vestígio de teatralidade desadequada. Os temas por cima dos quais “Room” é construído são incrivelmente negros e deprimentes. Nas mãos destes dois jovens atores e da sua mágica relação, uma viagem ao inferno transforma-se numa celebração da vida.

 

Pedro Quedas

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Os desafios de ser mulher: “Carol” / “The Danish Girl”

Carol + The Danish Girl

Carol

Classificação: 7/10

Nomeações: 6 (Melhor Atriz Principal, Melhor Atriz Secundária, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Banda Sonora)

O que é bom em “Carol” é muito bom. Desde a construção do ambiente nebuloso e intoxicante dos anos 50 ao modo como a banda sonora se entrelaça entre esse ambiente e a história de amor tortuoso que nele nasce. Acima de tudo, Cate Blanchett e Rooney Mara entregam-nos aqui duas performances ricas e complexas. O construir do seu amor, entre Carol, uma mulher mais velha e conhecedora dos compromissos da vida, e Therese, uma mulher mais nova e (até certo ponto) inocente, torna-se ainda mais interessante quando os papéis são, por momentos, de forma muito subtil, invertidos. É um ato de sedução contínua que navega por entre os becos escondidos de uma sociedade que não o consegue aceitar – ainda mais naquela altura. Com tudo isto a seu favor, “Carol” podia muito bem ter sido um dos melhores filmes do ano, mas acaba por se deixar cair na armadilha de uma das suas maiores virtudes. Com um tema tão potencialmente bombástico, é de louvar o esforço no sentido de não deixar a história cair no sensacionalismo e na exploração cínica dos preconceitos. Mas o problema é que, de tanto querer ser subtil, o filme torna-se, a espaços, aborrecido. Existem vários momentos durante o desenvolvimento da relação entre Carol e Therese em que o ritmo narrativo se torna tão deliberado que se arrasta e certas ações que são subtis nas suas primeiras ocorrências tornam-se redundantes na sua repetição. Não é difícil de compreender o poder que um filme como este pode ter para encantar um espetador, mas não posso negar que, quando o vi, senti-me por vezes desligado de toda a beleza (cénica e emocional) que passeava pelo ecrã.

 

The Danish Girl

Classificação: 7/10

Nomeações: 4 (Melhor Ator Principal, Melhor Atriz Secundária, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direção Artística)

Tenho de começar por dizer que o “hype” que este filme tem tido em relação aos seus atores é completamente justificado. São duas performances impressionantes, por razões completamente diferentes. Eddie Redmayne oferece-nos aqui um retrato de vulnerabilidade e contenção, de um homem que na verdade nunca se sentiu um homem e que parte numa viagem interna para assumir a sua verdadeira identidade de género. Já Alicia Vikander encarna uma mulher cheia de vida, com energia a transbordar-lhe pelos poros, que se vai tornando mais tensa e sorumbática à medida que vai tendo de lidar com as mudanças incontroláveis no seu marido. Ambos estão muito, muito bem. Realizado por Tom Hooper, “The Danish Girl” é adaptado do romance de David Ebershoff, livremente inspirado nas vidas reais do casal de pintores dinamarqueses do início do século XX, Lili Elbe (nascido Einar Wegener) e Gerda Wegener. O filme tem sido severamente criticado pelos desvios que faz em relação à realidade histórica mas, francamente, isso interessa-me muito pouco. Tanto o livro como o filme que dele nasceu nunca se assumem como tendo a pretensão de serem documentários (são, ambos, assumidamente ficcionais) e, como tal, é um pouco absurdo exigir-lhes algo mais que uma boa história. Dito isso, o grande pecado do filme não é tanto ter mudado eventos históricos mas antes aquilo para que mudaram. A obra, que começa muito bem, vai perdendo o rumo à medida que os temas se começam a tornar mais “espinhosos” e, nos últimos 5-10 minutos (que não vou revelar), cai numa espiral de sentimentalismo que, pura e simplesmente, não resulta. O potencial estava aqui para algo bem melhor, mas acaba por me deixar com a sensação de que vi uma oportunidade falhada.

 

Pedro Quedas

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Pequenas decisões, gigantes emoções: “Brooklyn”

Brooklyn

Classificação: 9/10

Nomeações: 3 (Melhor Filme, Melhor Atriz Principal, Melhor Argumento Adaptado)

 

As minhas expectativas eram baixas com este filme. Esta história de uma imigrante irlandesa nos anos 50, confrontada com sentimentos de saudade e um conflito interno sobre que país considera ser a sua casa, tinha tudo para ser um melodrama xaroposo e aborrecido. E, no entanto, é tudo menos. Todos os anos surge um filme que só vejo por “obrigação profissional” e acaba por me deixar de rastos absolutamente do nada. Este ano, esse filme é “Brooklyn”.

Há muitas coisas boas nesta obra realizada por John Crowley. A construção dos espaços e dos contrastes entre Irlanda e EUA nos anos 50 é um triunfo de direção artística. O argumento, adaptado por Nick Hornby do romance homónimo de Colm Tóibin, consegue um equilíbrio perfeito entre emoção contida e diálogos cativantes. O próprio realizador merece um elogio pelo modo como consegue imprimir ritmo narrativo numa história simples sem nunca a deixar descambar para o melodrama barato. Mas, vamos ser sinceros, nada disto teria resultado se não fosse a performance incomparável da sua protagonista.

Saoirse Ronan é incrível neste filme. Mais do que incrível, ela irradia aquela magia cinemática só possível naqueles papéis que ficam para a História. Como Eilis Lacey, Ronan dança numa linha entre a profunda emoção que vai sentindo (tanto tristeza como alegria – por vezes ambas) e a timidez natural que faz com que o seu corpo nunca mostre o que é impossível de esconder no seu olhar. Certas atrizes têm a capacidade de nos desfilar um rol de emoções infindável com apenas uma leve mudança no brilho do seu olhar – como se tivessem uma ligação direta entre o coração e os olhos e a conseguissem ativar a gosto. É o tipo de feitiçaria que faz com que um homem do século XXI, que passa metade da sua vida com a cara enterrada num iPhone, quase grite para o ecrã quando a protagonista está prestes a tomar uma decisão errada na sua vida. Não há razão racional nenhuma para eu me importar com que o que uma personagem fictícia num filme faz da sua “vida”. Saoirse Ronan fez com que eu me importasse.

Não vão ter muitas melhores experiências cinéfilas este ano que assistir às mudanças subtis no comportamento de Eilis à medida que esta vai desenvolvendo o seu romance com o italiano Tony Fiorello – um também excelente Emory Cohen, com uma performance que irradia alegria de viver e consegue evitar todos os clichés deste tipo de personagem, ao mesmo tempo que os cumpre, ponto a ponto.

“Brooklyn” é o tipo de filme que me faz gostar de ir ao cinema. Certos tipos de filmes vamos ver seja como for e vamos continuar a ver independentemente das nossas expectativas serem cumpridas ou defraudadas. “Brooklyn” é aquela pequena pérola que podíamos deixar escapar se não estivéssemos atentos. “Brooklyn” recordou-me a importância de viver a vida de olhos sempre bem abertos.

 

Pedro Quedas

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