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Um estudo em abundância: Os melhores dos Óscares de 2016

Favoritos Pessoais

Talvez o diga todos os anos, mas esta fornada de filmes nomeados aos Óscares foi especialmente notável. Filmes de grande ambição e de pequenos momentos, performances bombásticas e subtis, textos intelectualmente notáveis e emocionalmente devastadores. Estive para me recusar a fazer escolhas em algumas destas categorias mas acabei por cumprir o meu “dever”. Reservo-me o direito de mudar de opinião de dia para dia. Sem mais demoras, segue a lista dos meus favoritos deste ano:

 

Melhor Filme – Spotlight: Este ano teve um pouco de tudo – e tudo excelente. Tivemos filmes “mainstream” a mostrar que o “mainstream” não tem de apelar ao denominador mais baixo. Tivemos épicos de enorme ambição visual e pequenos frescos do melhor e pior na condição humana. E, no topo da minha lista, um exemplo de como termos tão pouco “sexy” como economia e contenção podem confluir num clássico instantâneo e um dos filmes mais importantes dos últimos anos. Sem nunca se deixar cair na grandeza dos seus temas, “Spotlight” recorda-nos, numa era de desinformação e relativização dos factos, da importância da verdade. Tal como os jornalistas que tão bem representou, Tom McCarthy assume como a sua única missão revelar ao telespectador a verdade do que aconteceu em Boston no início do século. A sua arte está na sua ausência de pretensão e no modo como desaparece por trás da câmara e deixa a história falar por si. Num ano de grandes filmes, esta pequena grande obra ascendeu ao topo.

 

Melhor Realizador – George Miller, Mad Max Fury Road: Todos os realizadores nesta categoria foram responsáveis por filmes absolutamente incríveis. Não me canso de o repetir – este foi um ano fortíssimo para os Óscares. Assim, dou por mim a inclinar-me para “premiar” o realizador que mais imprimiu a sua visão no produto final. E, assim, a escolha óbvia é George Miller. “Mad Max Fury Road” tinha tudo para ser um filme fixe, mas foi o talento de Miller que o tornou um dos filmes de ação mais essenciais na história do género. Na sua mão, ficou provado que um blockbuster não tem de ser básico ou preso a fórmulas. A sua visão de “Mad Max” é estranha e idiossincrática, simultaneamente um filme “para gajos” e um manifesto feminista. Mais ninguém podia ter feito este filme. Mais ninguém tem este nível de criatividade. Mais ninguém merece mais um Óscar.

 

Melhor Ator Principal – Leonardo DiCaprio, The Revenant: De um lado, temos nomeados como Bryan Cranston (“Trumbo”) ou Matt Damon (“The Martian”), cujas performances são o produto de estrelas, fundadas em doses disparatadas de carisma. Do outro, os trabalhos camaleónicos de Michael Fassbender (“Steve Jobs”) e Eddie Redmayne (“The Danish Girl”). E depois temos Leonardo DiCaprio. O que podemos dizer acerca do seu papel em “The Revenant” que fique claro em texto? Como usar palavras para elogiar uma performance que não as usa? Não sei se será a melhor prestação da carreira deste incrível talento, mas é a mais visceral – a que melhor finta as nossas resistências e nos ataca o coração com a mesma ferocidade que certos animais selvagens. Este ano de cinema não seria o mesmo sem a insana entrega física e emocional de DiCaprio neste papel.

 

Melhor Atriz Principal – Brie Larson, Room: De todas as cinco nomeadas, apenas Jennifer Lawrence não está perto nesta “corrida à minha preferência”. Nomes consagrados como Cate Blanchett (“Carol”) ou Charlotte Rampling (“45 Years”) tiveram excelentes anos mas este ano foram as jovens promessas a cativar mais a minha atenção. As escolhas artísticas de Saiorse Ronan (“Brooklyn”) e Brie Larson (“Room”) são tão completamente diferentes, que nem me sinto especialmente bem a ter de escolher uma. Em última instância, acabo por gravitar para Larson, especialmente pela mágica química que estabelece em cena com o muito jovem Jacob Tremblay. Mais do que um “grande momento de Óscar”, o seu desempenho é uma coleção de pequenos momentos de emoções duras e reações subtis. Uma revelação a todos os níveis.

 

Melhor Ator Secundário – Mark Ruffalo, Spotlight: Num filme tão fundado na sua contenção emocional e na procura racional e objetiva da verdade, o Mike Rezendes de Mark Ruffalo é o rasgo de emoção que lhe dá mais sangue nas veias. Para além do trabalho impressionante de metamorfose física e comportamental, é no dinamismo emocional que a performance de Ruffalo se destaca. Mais um grande ano para um dos melhores atores de Hollywood, que acaba por ter a maior concorrência (no meu coração) por parte de um veterano do teatro inglês – o excelente e inescrutavelmente misterioso Mark Rylance, na sua encarnação do famoso espião russo de “Bridge of Spies”.

 

Melhor Atriz Secundária – Kate Winslet, Steve Jobs: Nada como o texto de Aaron Sorkin para criar essencialmente um “grilo falante” no contexto de um biopic sobre Steve Jobs. Kate Winslet agarra esse (potencialmente) ingrato mas essencial papel com unhas e dentes, navegando as supersónicas reviravoltas do texto “sorkiniano” com uma mestria que remonta ao carisma inqualificável das maiores estrelas da Era Dourada de Hollywood. Ainda hesitei em colocar o excelente desempenho de Alicia Vikander (“The Danish Girl”) neste lugar, mas foram as palavras (e olhares conhecedores) da Joanna Hoffman de Winslet as que mais me marcaram neste recheado ano de cinema.

 

Melhor Argumento Adaptado – Adam McKay e Charles Randolph, The Big Short: Mais do que ser apenas uma lista de escolhas de grande qualidade, esta categoria está recheada de argumentos ecléticos. Subtis e intensos, melancólicos e cómicos, estes textos percorrem todo o espectro da vida neste planeta (e até fora dele). Sendo que tenho de fazer uma escolha, acho que “The Big Short” foi o melhor deste ano, especialmente pelo modo criativo e dinâmico como conseguiram dar ritmo e interesse a uma história sobre a crise do “sub prime”. Adam McKay foi um dos nomes mais surpreendentes a aparecer nesta fornada de filmes nomeados e gostaria de vê-lo a ser premiado pela fascinante corda bamba de investimentos emocionais que conseguiu criar neste filme.

 

Melhor Argumento Original – Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, Inside Out: Esta escolha é absolutamente demoníaca. Quando o brilhante argumento de “Spotlight” nem sequer entra nas minhas equações, sabemos que estamos perante algo de especial. O argumento de Alex Garland para “Ex Machina” é um dos mais brilhantes textos de especulação filosófica dos últimos anos da ficção científica. Em qualquer outro ano, seria o líder destacado nas minhas preferências. Mas como posso eu escolher outro filme que “Inside Out”? A minha maior tristeza nestes Óscares foi não ver “Inside Out” entre os nomeados a Melhor Filme e continua a ser o meu filme favorito do ano que passou. E uma das maiores razões é este fenomenal argumento, que consegue tão delicadamente materializar as impossivelmente complexas maquinações do cérebro de uma criança em crescimento. Este filme não me fez apenas rir e chorar – fez-me sentir. Um Óscar seria o mínimo agradecimento possível.

 

PS: Não se esqueçam de fazer as vossas previsões de quem vai ganhar este ano e participar no Oscar Challenge 2016. Vejam o que têm de fazer clickando aqui.

 

Pedro Quedas

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Escolhas, escolhas, escolhas…: Os melhores dos Óscares de 2013

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Os Óscares estão aí mesmo à porta e é chegada a altura de fazemos o balanço ao que foi um excelente ano de cinema, um dos melhores neste jovem século. Amanhã irei apresentar as minhas previsões no que respeita a quem “vai” ganhar, mas hoje é dia de partilhar quem eu acho que “devia” ganhar. Amanhã voltarei a entrar em modo profissional e apresentar a minha previsão do modo mais técnico e objectivo possível. Hoje é dia de partilhar a minha opinião pessoal. Se fosse eu a decidir as escolhas da Academia, seriam estes os vencedores:

 

Melhor Filme – Zero Dark Thirty: Provavelmente a decisão mais difícil num ano que viu uma série de excelentes filmes ser nomeados para o principal galardão dos Óscares e uma mão-cheia de outros igualmente bons a ficarem de fora das escolhas da Academia. Dito isto, a escolha possível num leque de decisões impossíveis acaba por ser “Zero Dark Thirty”, a brilhante análise de Kathryn Bigelow a todo o processo que levou à captura e morte de Osama Bin Laden. Um filme carregado de tensão, complexidade e performances magistrais. Um filme digno de ser considerado o “melhor” e o que ocupa um espaço maior no meu coração cinéfilo.

 

Melhor Actor Principal – Daniel Day-Lewis, Lincoln: É o Daniel Day-Lewis. O Bradley Cooper foi uma surpresa muito agradável em “Silver Linings Playbook”, mas é o Daniel Day-Lewis. Denzel Washington esteve tão perfeito quanto já nos habituámos a esperar dele em “Flight”, mas é o Daniel Day-Lewis. É uma escolha óbvia, mas como evitá-la? O Óscar está entregue e com toda a justiça. O actor irlandês não se limita a interpretar uma personagem, vive-a. Por dentro e por fora, com uma subtileza e intensidade que, não sabemos bem como, convivem em harmonia. O melhor actor desta e muitas outras gerações.

 

Melhor Actriz Principal – Jessica Chastain, Zero Dark Thirty: Uma das mais complicadas decisões do ano cinematográfico. Nenhuma das actrizes nesta categoria deu uma performance menos que brilhante. Forçado a fazer uma escolha, terei de ir com Jessica Chastain, simplesmente porque ela é uma das principais razões para “Zero Dark Thirty” ser o meu filme favorito do ano. Num filme que demonstra os limites a que pode chegar a obsessão, a agente do CIA “Maya” é a personificação dessa determinação. De como a fúria emocional e a ambição profissional se podem fundir numa bola de energia imparável. A performance mais explosiva do ano.

 

Melhor Actor Secundário – Christoph Waltz, Django Unchained: Cada vez mais estou convencido que este actor austríaco é uma nova espécie de ser humano criado num laboratório, concebido com o único objectivo de dizer falas de Quentin Tarantino. Depois da sua perturbadora e (justamente) premiada performance em “Inglorious Basterds”, o realizador norte-americano parece ter percebido como Christoph Waltz se enquadra no seu estilo como ninguém. O actor austríaco deixa escorrer as incríveis e inesperadas palavras de Tarantino da sua boca com um deleite incomparável, entre o sadismo e a mais egoísta satisfação. Os momentos mais altos de “Django Unchained” são seus.

 

Melhor Actriz Secundária – Anne Hathaway, Les Misérables: Tenho sempre alguma dificuldade em dar o meu “voto” a performances com tão poucos minutos em cena. Como tal, a minha preferência poderia hesitar entre as igualmente corajosas interpretações de Sally Field (“Lincoln”) e Helen Hunt (“The Sessions”). Mas não. Se é verdade que o cérebro tem sempre algo a dizer nestas decisões, uma escolha pessoal tem de vir de dentro, da alma. E a grande verdade é que nenhuma outra performance nesta categoria me marcou tanto como a brilhante interpretação de Anne Hathaway de “I Dreamed I Dream” em “Les Misérables”. Ainda estou arrepiado. Isso tem de valer um Óscar.

 

Melhor Realizador – Steven Spielberg, Lincoln: É muito raro eu não considerar que o melhor realizador do ano não foi o responsável pelo melhor filme. Como tal, o meu voto nesta categoria iria certamente para Kathryn Bigelow. Sendo que a já premiada realizadora não foi sequer nomeada este ano, o meu voto irá para o realizador do meu segundo favorito entre todos os nomeados. Poucos para além de Steven Spielberg teriam a confiança e o talento para pegar num filme que é essencialmente só conversa – erudita, emocional e cativante, mas só conversa –, e torná-lo tão interessante. Mais um momento alto numa carreira recheada deles.

 

Melhor Argumento Original – Wes Anderson e Roman Coppola, Moonrise Kingdom: Antes de mais, tenho a dizer que “Django Unchained” ocupa um segundo lugar muito próximo na minha preferência. E que esta categoria está tão forte que também ficaria contente se Michael Haneke (“Amour”), John Gatins (“Flight”) ou Mark Boal (“Zero Dark Thirty”) ganhassem o prémio. Mas nenhum outro argumento foi tão bem escrito este ano como o do filme de Wes Anderson. Nenhumas outras palavras me fizeram voar tão alto numa nuvem de nostalgia infantil. Nenhum outro texto compreendeu tão essencialmente o que é o amor.

 

Melhor Argumento Adaptado – Tony Kushner, Lincoln: Também aqui não faltam textos de enorme qualidade, mas cedo a minha decisão ficou reduzida a duas hipóteses. E, embora me custe não “premiar” o excelente trabalho que Chris Terrio fez com o seu argumento para “Argo”, o meu voto tem de ir para Tony Kushner, um dos principais responsáveis (em conjunto com Spielberg) por tornar o relato de um processo tão burocrático como a aprovação de uma lei, numa viagem acelerada e entusiasmante ao passado histórico dos EUA. Provavelmente nenhum outro filme este ano foi servido com uma dose tão grande de talento.

 

Pedro Quedas

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