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A arte no caos: “Mad Max Fury Road”

Mad Max Fury Road

Classificação: 9/10

Nomeações: 10 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Direção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Caracterização, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som, Melhores Efeitos Visuais)

 

Como é possível que um filme puro de ação seja uma das mais interessantes visões artísticas deste ano cinematográfico? Que uma história fundada no estereótipo clássico do anti-herói másculo e solitário tenha uma tão profunda mensagem feminista? Que um filme tão económico nas palavras consiga criar um subtil mas complexo novo mundo, povoado de singulares mitologias? “Mad Max: Fury Road” é tudo isto e muito mais. É um triunfo de execução que está tudo menos vazio de ideias. É, muito simplesmente, um dos melhores filmes do ano.

A história acompanha a viagem de “Mad Max” Rockatanski, um sobrevivente do holocausto nuclear, a tentar sobreviver num deserto pós-apocalíptico onde água e gasolina são bens raros e que motivam enormes guerras por controlo dos recursos entre gangues rivais com comportamentos… peculiares. Ou antes, esta é a história normal dos três primeiros filmes no “franchise”. Desta feita, George Miller presenteia-nos com algo um pouco diferente.

Neste filme, o estoico Max Rockatanski (impecavelmente interpretado por Tom Hardy) não é tanto o omnipresente herói da história quanto é o parceiro relutante de Imperator Furiosa, a verdadeira líder desta narrativa. Furiosa é encarnada por uma Charlize Theron que imbui a complexa personagem de uma força interior raramente vista (infelizmente) na maioria das personagens femininas em filmes de ação. É uma mulher determinada em vingar num mundo controlado por homens que nunca se deixa cair em clichés. A sua raiva é justificada, a sua luta é nobre, a sua força é incomparável.

Também crucial ao sucesso deste filme é o modo como Imperator Furiosa e “Mad Max” desenvolvem uma relação de profunda intimidade ao longo do filme. Com poucos diálogos, sem beijos ao pôr-do-sol ou declarações épicas de amor eterno. Para um filme tão bombástico, não deixa de ser curioso com uma das suas maiores forças é a subtileza. Subtileza no modo como as personagens evoluem e, ainda mais, no modo como o mundo da narrativa é construído. Bons filmes não precisam de longos diálogos expositivos para envolver o telespetador num futuro alternativo movido a “guzoline”.

Seria fácil criticar este filme por não ser mais que uma longa perseguição de carros para um lado – seguida de uma longa perseguição de carros para outro. Até certo ponto… é o que este filme é. Uma aparentemente interminável corrida numa tapeçaria de caos. Mas há arte neste caos, há génio na orquestração deste ballet de violência. Todas as nomeações “técnicas” que este filme conseguiu são completamente merecidas, mas fluem integralmente da mente brilhante de onde nasceu esta bizarra e improvável aventura. O veterano realizador australiano não perdeu nem um pouco do seu rasgo e irreverência com os seus 70 anos. Se o futuro é dos jovens, ninguém avisou George Miller.

 

Pedro Quedas

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