Tag Archives: Importância

Profetas da desgraça: Devemos usar outros prémios para prever os Óscares?

Image

Vencer um Óscar tem tanto de mérito artístico como de marketing e de gestão da onda de ‘buzz’ que se vai formando ao longo dos dois primeiros meses do ano, naquela que é normalmente chamada de ‘Oscar season’ (alguns dos mais cínicos entre nós diriam que é dado mais ênfase à segunda parte desta equação). Assim sendo, é importante distinguir entre o que constitui ‘buzz’ genuíno e o que não passa de fogo de vista.

Na categoria de “fogo de vista”, os principais “culpados” são os Globos de Ouro. Sem querer retirar importância à conquista do prémio em si (que muito deve honrar os poucos privilegiados que o recebem) é essencial não confundir essa vitória com uma previsão do que se vai passar nos Óscares. De facto, nos últimos dez anos, os vencedores de Melhor Filme nos Óscares coincidiram com os premiados nos Globos de Ouro apenas quatro vezes.

Este número torna-se especialmente decepcionante se considerarmos que os Globos de Ouro separam os premiados entre Melhor Filme – Drama e Melhor Filme Musical/Comédia. Ou seja, mesmo que tivéssemos uma grande confiança na fidelidade dos Globos como “profetas” dos Óscares, continuaríamos a ter de escolher entre dois possíveis candidatos. De facto, nas quatro vezes em que os Globos de Ouro “acertaram na previsão” nos últimos dez anos, dois foram na categoria de Drama (“Slumdog Millionaire” e “The Lord of the Rings: The Return of the King”) e dois na de Musical/Comédia (“The Artist” e “Chicago”).

Como se pode explicar esta discrepância? Muito simplesmente porque não são as mesmas pessoas a escolher quem ganha. Os Globos de Ouro são atribuídos pelos 93 membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, enquanto que os Óscares são escolhidos pelos quase seis mil membros da Academia, que inclui membros de todas as vertentes profissionais ligadas à sétima arte, desde produtores e realizadores a técnicos de som e carpinteiros.

As escolhas dos Óscares tendem a ser, ainda que não necessariamente focadas no sucesso comercial de um filme (como é muitas vezes apontado, erroneamente), sem dúvida mais “conservadoras” do que muitos desejariam. Isto pode ser explicado pelo facto de um membro da Academia só perder o seu voto quando morre, o que faz com que a média de idades dos votantes seja muito elevada, formando um sector demográfico de decisores pouco dado a premiar ruptura e irreverência.

Devemos então simplesmente ignorar tudo o que se passa antes da cerimónia de 24 de Fevereiro? Desistir de tentar fazer qualquer espécie de previsão? Não necessariamente. Porque se é verdade que não devemos retirar muitas conclusões dos Globos de Ouro, estes não são os únicos prémios da ‘Oscar season’. Ao longo das próximas semanas ainda vão ser entregues os prémios das associações de críticos de várias cidades norte-americanas. Estes prémios são importantes, acima de tudo, na criação do já muito falado ‘buzz’, que influencia, de facto, as mentes dos votantes.

Mais importantes ainda são os prémios dos sindicatos dos produtores, realizadores, actores, etc. Estes últimos costumam ter uma muito maior percentagem de eficácia na previsão dos Óscares, dado que os que votam neles são os mesmos que fazem parte do “júri” da Academia. São infalíveis? Claro que não, nada é. Mas deveríamos todos ficar bem atentos quando esses prémios começarem a ser entregues ao longo das próximas semanas.

 

Pedro Quedas

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Em Análise