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Tiros certeiros e tiros no pé: “Joy” / “Straight Outta Compton” / “45 Years”

Joy + Straight Outta Compton + 45 Years

Joy

Classificação: 6/10

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

O que temos aqui é um filme que parece determinado a dar um tiro no pé a cada esquina que contorna. David O. Russell é um realizador polarizador – e eu tendo a estar no seu canto, mas não sei bem o que dizer do que vi aqui. A história de Joy Mangano, inventora norte-americana que esteve na origem da ascensão das vendas por televisão, até podia ter dado um filme interessante, mas não desta forma. Sempre que o filme parece estar a entrar no rumo certo, deixa-se cair num pântano de clichés. Apenas o comportamento deplorável da família de Joy parece fugir ao estereótipo deste género de filme, mas acaba por ser um estereótipo diferente, “normal” nos filmes de David O. Russell. Adicionalmente, a narração colocada à força por cima da história vangloriando a protagonista é tão despropositada que, a espaços, parece uma paródia de si mesma. A única razão porque este filme não é pior é devido ao carisma de Jennifer Lawrence. Mesmo em cenas que têm tudo para resvalar para a desgraça, a presença magnética de Lawrence faz com que resultem. É tão inegável o seu talento quanto o facto de ser quase totalmente desperdiçado neste filme.

 

Straight Outta Compton

Classificação: 8/10

Nomeações: 1 (Melhor Argumento Original)

Mais do que qualquer outra coisa, “Straight Outta Compton” é um triunfo de casting. Não só os atores escolhidos para interpretar os vários membros do lendário coletivo de hip hop NWA são muito parecidos com eles fisicamente, como acabam por ter quase todos interpretações muito fortes e carismáticas. Jason Mitchell tem o papel mais complexo como Eazy-E, mas é impecavelmente acompanhado por Corey Hawkins, que apresenta-nos um Dr. Dre simultaneamente excitado pelo sucesso meteórico que está a ter e assustado com o estilo de vida dos seus parceiros musicais pós-NWA que o rodeiam, especialmente o tenebroso Suge Knight. Mas o destaque maior terá de ir para O’Shea Jackson Jr., carismático no modo como encarna a personalidade explosiva de Ice Cube – ou não fosse ele o seu filho. Para além do casting, o filme é bom. Não é incrível, mas é bom. Acima de tudo, merece o crédito por não fugir a algumas das mais duras realidades da ascensão dos NWA no mundo do rap – ainda que branqueie algumas também, principalmente nos momentos finais do filme. Os ingredientes estavam aqui para ser um excelente filme – bom terá de chegar.

 

45 Years

Classificação: 7/10

Nomeações: 1 (Melhor Atriz Principal)

O que fazer quando as fundações de um casamento de 45 anos começam a ruir com uma simples revelação? Mais, o que fazer quando nos apercebemos que as fundações já estavam a ruir há muito tempo – ou talvez nunca lá tenham estado? Só uma atriz com a experiência e talento de Charlotte Rampling conseguiria dar corpo e vida a uma emoção tão complexa e difícil de exteriorizar. O modo como o faz é uma das melhores partes deste “45 Years”, o novo filme de Andrew Haigh, também responsável pelo muito interessante “Weekend”. A evolução do comportamento entre Kate (Rampling) e Geoff (Tom Courtenay) é a espinha dorsal de um filme que vai, subtilmente, revelando surpresas completamente devastadoras. A pior coisa que podia ter acontecido a este filme seria ter descambado totalmente para o melodrama e degenerar num festival de berros e acusações, mas penso que acabou por se desnivelar demasiado para o outro lado. Há uma linha que separa o subtil do impenetrável e “45 Years” salta à corda com essa linha. Ainda assim, o desempenho de Charlotte Rampling é imperdível e um dos momentos altos do ano “oscariano”.

 

Pedro Quedas

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