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Do topo dos céus ao fundo do mar: A playlist dos Óscares

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Já falámos por aqui da importância da música no cinema. De como certas bandas sonoras instrumentais conseguem-nos transportar automaticamente para um novo mundo cheio de possibilidades. De como certas músicas previamente conhecidas ganham todo um novo significado se aplicadas na cena certa.

Mas por vezes o contrário acontece. Certas músicas nascem no processo da criação cinematográfica e acabam por transcendê-lo, tornando-se entidades por si mesmas. Muitas delas tornam-se clássicos do mundo da música contemporânea, de tal modo que nos esquecemos que nasceram na tela.

Em jeito de serviço público, o “Na Rota dos Óscares” oferece a seguinte ‘playlist’, composta exclusivamente por canções nomeadas para (ou mesmo vencedoras do) Óscar para Melhor Canção Original. Agora, é só clicar no ‘Play’:

 

1 – Gonna Fly Now (“Rocky”, 1976 – Nomeada): Todos sabemos que uma boa ‘playlist’ tem de começar em grande e não é há canção mais grandiosa que este hino temporal do clássico “Rocky”, que nos faz querer começar a correr escadas acima.

2 – Live And Let Die (“Live And Let Die”, 1973 – Nomeada): Para manter a toada em alta rotação, vamos para este clássico de Paul McCartney, a primeira música de Bond a ser nomeada a um Óscar.

3 – Falling Slowly (“Once”, 2007 – Vencedora): Depois do começo acelerado, vamos acalmar um pouco com esta balada sublime de Glen Hansard e Markéta Irglová, que deu um Óscar a “Once”.

4 – Cheek To Cheek (“Top Hat”, 1935 – Nomeada): Esta pérola com quase 80 anos continua a levar-nos ao céu mesmo depois de todos estes anos. Divinal mal chega para elogiar esta maravilhosa canção.

5 – The Way You Look Tonight (“Swing Time”, 1936 – Vencedora): Para nos levantar o espírito nos nossos momentos mais baixos, não podemos arranjar melhor que esta linda canção de “Swing Time”.

6 – That Thing You Do! (“That Thing You Do!”, 1996 – Nomeada): Se o tom é a nostalgia, que tal deliciar-nos com esta belíssima “invenção”? Uma música composta nos anos 90 a imitar o estilo dos anos 60 com uma boa-disposição intemporal.

7 – The Power Of Love (“Back To The Future”, 1985 – Nomeada): Boa parte do sucesso de “Back To The Future” pode ser creditado ao seu bombástico começo, apoiado neste clássico rock de Huey Lewis.

8 – Ghostbusters (“Ghostbusters”, 1984 – Nomeada): Se estamos a falar de nostalgia dos anos 80, é impossível não recordarmos com um sorriso a música titular do super-êxito “Ghostbusters”, Ray Parker, Jr.

9 – Nobody Does It Better (“The Spy Who Loved Me”, 1977 – Nomeada): Carly Simon veio a ganhar um Óscar com “Let The River Run”, de “Working Girl”, mas a cantora esteve ainda melhor na sua contribuição para o catálogo de Bond.

10 – On The Road Again (“Honeysuckle Rose”, 1980 – Nomeada): Um toque de ‘country’ e melancolia para nos ajudar nesta viagem musical, cortesia do lendário cantor e compositor Willie Nelson.

11 – Save Me (“Magnolia”, 1999 – Nomeada): Todo este filme é uma canção, pelo que esta nomeação é apenas uma amostra de apreciação pelo talento inconfundível de Aimee Mann, que teve quase tanto impacto na obra como o realizador Paul Thomas Anderson.

12 – Miss Misery (“Good Will Hunting”, 1997 – Nomeada): Elliott Smith morreu cedo demais, vítima de uma depressão que nunca conseguiu largar. Fica o legado de tristes mas incríveis canções como esta.

13 – Blame Canada (“South Park: Bigger, Longer & Uncut”, 1999 – Nomeada): Porque gosto de “South Park”. Porque esta música é tão acertada na sua crítica que quase dói na alma. E porque é, simplesmente, uma excelente canção.

14 – Belleville Rendez-Vous (“Les Triplettes de Belleville”, 2003 – Nomeada): Outra injecção de nostalgia retroactiva nesta lista, desta feita com uma deliciosa homenagem à era dourada do ‘music hall’.

15 – I Have Nothing (“The Bodyguard”, 1992 – Nomeada): Uma ‘playlist’ completa e eclética deve contar com pelo menos um “momento diva”. Acho que podemos ficar satisfeitos com Whitney Houston no seu melhor.

16 – Streets Of Philadelphia (“Philadelphia”, 1993 – Vencedora): Dos mais altos picos da emoção épica ao nível mais terreno das ruas, onde a esperança vive escondida por trás de caixotes de lixo e memórias de tempos mais fáceis.

17 – I’ve Got You Under My Skin (“Born To Dance”, 1936 – Nomeada): Estamos quase a chegar ao fim. Deixo-vos nas mãos seguras de Cole Porter, com um clássico que já deu origem a inúmeras e grandiosas interpretações.

18 – They Can’t Take That Away From Me (“Shall We Dance”, 1937 – Nomeada): E que tal um pouco de Gershwin para aguçar o palato? Nunca estamos mal servidos quando nos entregamos ao génio dos irmãos George e Ira.

19 – Unchained Melody (“Unchained”, 1955 – Nomeada): Todos conhecemos a versão que os The Righteous Brothers popularizaram em 1965, mas talvez poucos saibam que o original saiu deste relativamente obscuro filme lançado dez anos antes.

20 – Under The Sea (“The Little Mermaid”, 1989 – Vencedora): Esta viagem musical tem de acabar numa nota apoteótica. Resta-nos pedir à Disney para nos transportar para um mundo de fantasia e alegria sem cinismo. Ali, debaixo do mar…

 

Pedro Quedas

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Arquitectos de emoções: A importância da música na Sétima Arte

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Quando falamos dos prémios principais dos Óscares, tendemos a concentrar as nossas atenções no trabalho dos realizadores, actores e argumentistas. Sendo que poucos dos que trabalham no meio são ignorantes ao ponto de menosprezar a importância do trabalho de toda a equipa na produção de um bom filme, estes três vectores são aqueles que, inevitavelmente, atraem a maioria da atenção por parte dos fãs dos Óscares. Isto é injusto para o trabalho de um sem número de profissionais, especialmente para os compositores.

Se pararmos para pensar bem no assunto, quantos são os filmes que, quando nos recordamos deles, a primeira coisa que nos ocorre é a sua banda sonora? O que nos vem à cabeça quando pensamos na cena do duche em “Psycho”? Ou quando Elliot atravessa a lua na sua bicicleta voadora, em “E.T. the Extra-Terrestrial”? Ou nos memoráveis créditos iniciais de “Star Wars” ou “2001: A Space Odissey”? Ou quando nos recordamos de qualquer cena de “The Good, The Bad and the Ugly”?

É um trabalho ingrato, este de formar um dos pilares para o estatuto lendário de tantos filmes e não ter necessariamente o reconhecimento devido pelo seu contributo. Mas é este o dia-a-dia da fundamental comunidade de compositores de Hollywood, um grupo eclético que atravessa várias gerações e estilos musicais. Um grupo com nomes que vão desde os lendários John Williams ou Ennio Morricone a talentos inovadores como Danny Elfman ou Hans Zimmer.

Teria “Jaws” tido o mesmo aterrador impacto sem aqueles acordes agoniantes a repetirem-se na nossa cabeça? Quanto do encanto de “Amélie” se teria perdido sem o contributo de Yann Tiersen? E será que “Inception” teria conseguido agarrar o pulso do espectadores com tanta força sem aquela imparável banda sonora? Quanto tem a Disney de agradecer a Alan Menken pela sua nova “era dourada”, que começou com “The Little Mermaid” e nunca mais parou?

E o que dizer da relevância de certas canções para a popularidade de tantos filmes? Basta olharmos para a saga James Bond (cuja primeira identificação de cada filme começa, invariavelmente, pela sua música titular), para percebermos o quanto o cinema tem a ganhar ao não descurar o poder de uma canção. Clássicos como “As Time Goes By”, “When You Wish Upon A Star” ou “Streets Of Philadelphia” ajudaram a tornar os seus filmes ainda maiores do que sequer sonhavam ser. Isto mostra como a indústria musical reconhece a importância da sua presença num filme. Nomes que vão desde os Beatles a Bob Dylan, passando por David Byrne, Bruce Springsteen ou Tom Waits, contam com uma nomeação ao Óscar no seu extenso currículo.

Todos nos lembramos das músicas, mas raramente lhes damos o seu crédito. Pela sua própria natureza, vivem para servir o filme nos bastidores, guias invisíveis do nosso investimento emocional num filme. Este texto apenas é manifestamente insuficiente para sequer começar a dar uma noção da importância da música na nossa experiência cinéfila. Principalmente se considerarmos que nem chegámos sequer a abordar um único musical.

 

Pedro Quedas

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