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Grandes surpresas e grandes verdades: Mensagens fortes marcam noite dos Óscares

Balanço Óscares 2016

Alejandro G. Iñárritu fez história ontem à noite, juntando-se a nomes como John Ford e Joseph L. Mankiewicz como os únicos realizadores que conquistaram dois Óscares de Melhor Realizador em anos consecutivos. Por muito pouco não se colocou num pedestal só para si, se tivesse conquistado também o Melhor Filme – seria o único a ter conseguido esses dois prémios dois anos seguidos. Mas a Academia decidiu fazer uma leve finta a “The Revenant” e deu o Óscar de Melhor Filme ao excelente drama jornalístico “Spotlight”.

O filme de Tom McCarthy, que destacou a luta dos jornalistas do Boston Globe contra a corrupção e escândalos de pedofilia dentro da Igreja Católica, acabou por ganhar o Óscar mais cobiçado, com apenas mais outra vitória, em Melhor Argumento Original. O outro prémio de escrita, Melhor Argumento Adaptado, foi para “The Big Short”, o outro filme que estava indicado como um potencial vencedor no final e acabou por este “Óscar de consolação”.

Já nas categorias de performances, houve muito poucas surpresas. Leonardo DiCaprio conseguiu finalmente o seu Óscar (e foi mais que justo, por mais que seja divertido para alguns fingir que não foi), Brie Larson saiu no topo pelo seu belíssimo papel em “Room” e Alicia Vikander levou um Óscar para a equipa de “The Danish Girl”. A única (relativa) surpresa foi Mark Rylance (“Bridge of Spies”), que “retirou” o Óscar que se pensava estar destinado a Sylvester Stallone.

E, claro, “Mad Max: Fury Road” levou uma batelada de Óscares nas categorias técnicas e mesmo assim pareceu saber a pouco. Ainda assim, what a lovely day.

Por fim, não é possível falar destes Óscares sem falar do seu complexo e, sim, desconfortável tema. Primeiro que tudo, deve ser dito que Chris Rock foi incrível. Absolutamente incrível. Há muito tempo que não via um monólogo que conseguiu equilibrar de forma tão perfeita ter muita piada com ser muito, até dolorosamente, verdadeiro – “When your grandmother’s swinging from a tree, it’s really hard to care about Best Documentary Foreign Short”.

Ao longo do seu monólogo, Chris Rock foi apontando o mais essencial que devemos retirar do protesto #OscarSoWhite – que embora o protesto em si tenha os seus problemas, a sua mensagem inerente não pode ser ignorada. Os problemas? Que o modo como foi apresentado ao grande público fez parecer que o problema era a falta de nomeações especificamente – o que, neste ano, parecia um pouco despropositado. Francamente, não houve nenhum “escândalo”. Michael B. Jordan e Idris Elba podiam ter sido nomeados, certo, mas não é nenhum erro imperdoável não terem sido. Will Smith? Please… (leiam esta última palavra no pior sotaque nigeriano que conseguirem)

Mais do que estas não-nomeações, o grande problema é que, depois deles dois, quem mais estava na corrida? Com tantos atores e atrizes negras de enorme talento no mercado, por que raio só apareceram duas performances com genuínas hipóteses de competir por uma estatueta? Experimentem, se conseguirem, olhar para o slogan #OscarSoWhite de outra forma. E se eu vos disser que pode não ser necessariamente apenas um ataque aos membros da Academia pelos seus votos mas antes à indústria como um todo?

É aí que reside o problema. Obcecados com o seu “bottom line”, os estúdios continuam a ouvir a turba de atrasados mentais a entrar em histeria por haver um Stormtrooper negro e em vez de pensarem “talvez possamos tirar esta oportunidade para educar as pessoas e, quem sabe, ter um impacto positivo na sociedade”, regridem para as suas conchas cobardes e não hesitam em moldar os seus produtos aos piores instintos que a humanidade tem para oferecer. Atores e atrizes negras não deviam ser obrigados a fazer filmes importantes sobre o legado da cultura afro-americana para terem hipótese de ser elogiados. Só quando começarmos a ver uma proporção muito maior de homens e mulheres de cor nos nossos grandes ecrãs vamos começar a deixar de notar a cor dos nomeados.

O pior erro que podemos cometer é achar que já lá estamos.

Para os mais distraídos, fica aqui a lista completa dos vencedores:

Melhor Filme

 “Spotlight”

Melhor Realizador

Alejandro G. Iñárritu, “The Revenant”

Melhor Ator Principal

Leonardo DiCaprio, “The Revenant”

Melhor Atriz Principal

Brie Larson, “Room”

Melhor Ator Secundário

Mark Rylance, “Bridge of Spies”

Melhor Atriz Secundária

Alicia Vikander, “The Danish Girl”

Melhor Argumento Adaptado

Adam McKay e Charles Randolph, “The Big Short”

Melhor Argumento Original

Tom McCarthy e Josh Singer, “Spotlight”

Melhor Fotografia

“The Revenant”, Emmanuel Lubezki

Melhor Montagem

“Mad Max: Fury Road”, Margaret Sixel

Melhor Filme de Animação

“Inside Out”, Pete Docter e Ronnie Del Carmen

Melhor Filme Estrangeiro

“Son of Saul”, Hungary

Melhor Banda Sonora Original

“The Hateful Eight”, Ennio Morricone

Melhor Música Original

 “Writings on the Wall” de “Spectre”

Melhor Direção Artística

“Mad Max: Fury Road”

Melhor Guarda-Roupa

“Mad Max: Fury Road”

Melhor Caracterização

“Mad Max: Fury Road”

Melhor Documentário

“Amy”

Melhor Documentário, Curta-Metragem

“A Girl in the River”

Melhor Curta-Metragem, Animação

“Bear Story”

Melhor Curta-Metragem, Live Action

 “Stutterer”

Melhor Montagem de Som

“Mad Max: Fury Road”

Melhor Mistura de Som

“Mad Max: Fury Road”

Melhores Efeitos Visuais

“Ex-Machina”

 

Pedro Quedas

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