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O mistério de um olhar: “Bridge of Spies”

Bridge of Spies

Classificação: 8/10

Nomeações: 6 (Melhor Filme, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento Original, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Direção Artística, Melhor Mistura de Som)

 

O tema era rico para a “Oscar season”. A ficha técnica era estelar – com nomes como Steven Spielberg, Tom Hanks e até os Irmãos Coen a darem um “pedigree” incomparável ao filme. Este filme tinha tudo para ser demasiado… “polido”. “Bridge of Spies” é tudo menos. É, antes, uma mostra de subtileza e economia narrativa. Nas mãos do seu genial realizador, esta história de espiões, advogados e nações em convulsão pinta um fresco elegante de uma das mais curiosas histórias dos tempos da Guerra Fria.

A história? Rudolf Ivanovich Abel (Mark Rylance) foi um notório espião soviético que foi capturado nos anos 50 e a quem foi atribuído, numa suposta mostra de imparcialidade jurídica, um dos melhores advogados de Nova Iorque – James Donovan (Tom Hanks). O veterano advogado, com o custo da sua popularidade (por defender um suposto traidor à pátria), desenvolve uma relação próximo com Abel, que acaba por culminar na negociação da sua troca por um soldado americano algures nas escuras e desorganizadas ruas de Berlim aquando da construção do célebre muro.

Se Spielberg e Hanks são as mãos seguras que carregam esta complexa história de avanços e recuos sob a sombra de uma guerra nuclear entre duas superpotências, Mark Rylance é a estrela que brilha por entre a penumbra. O veterano e aclamado ator de teatro inglês mostra o quanto se consegue fazer com um simples olhar. Com uma cara encovada, um corpo debilitado pela idade e uma miríade de segredos que foi educado desde cedo a saber esconder, Rylance consegue mostrar como Abel vai gradualmente mostrando mais emoção a cada cena, a cada momento de confiança conquistada. Quase nada muda na sua cara, mas a nossa relação com o personagem é transfigurada no fim do filme. É nada menos que brilhante.

Será “Bridge of Spies” um filme capaz de nos mudar a vida? Uma obra-prima da qual falaremos daqui a 20 anos como um dos melhores do seu tempo? Talvez não. “Limita-se” a ser um filme muito, muito bem feito. Não é um dos grandes candidatos à vitória na noite dos Óscares, mas não é obrigado a sê-lo. É “apenas” um belíssimo filme, feito por uma equipa que sabe o valor de contar uma boa história.

Esta equipa é composta tanto pelas grandes estrelas que atraem a maioria dos telespectadores ao cinema para ver este filme quanto pelos vários outros trabalhadores incansáveis que construíram este fascinante mundo. Embalados pela música do nomeado ao Óscar Thomas Newman (a substituir o habitual colaborador de Spielberg, John Williams, ocupado com um certo pequeno filme sobre Jedis e sabres de luz do qual não devem ter ouvido falar), entramos verdadeiramente num novo mundo. Este é um filme fundado na sua atmosfera, calibrada em dois diferentes países através de subtis pistas visuais. É um exemplo perfeito de como o cinema pode funcionar como a mais bela máquina do tempo.

 

Pedro Quedas

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